quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Um primeiro encontro na minha casa. Um primeiro encontro em que eu desço pra abrir o portão com um saco de lixo na mão. Um primeiro encontro em que não tem cordeiro. Um primeiro encontro em que eu cozinho. Um primeiro encontro para o qual você traz seu sorvete preferido. Um primeiro encontro com cerveja. Com vinho. Com café. Um primeiro encontro com você de meias. Um primeiro encontro em que você não era quem eu achava que fosse. Um primeiro encontro em que eu tenho certeza que não sou seu tipo. Um primeiro encontro em que você faz piada d'A origem do mundo na porta da minha geladeira. Um primeiro encontro em que você faz piada com a minha água com gás. Um primeiro encontro em que você não conhece a banda que eu coloquei na vitrola.

Um amor atrás do outro atrás do outro e mais outro.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Meu ortopedista novo é muito animado. Meu ortopedista novo só trata de joelhos. Ele não trata de nenhuma outra parte do corpo, só joelho mesmo. Meu ortopedista novo, segundo um comentário numa cirurgia de joelho no YouTube, é "o cara pra tratar joelho". Meu ortopedista novo pediu exames que os outros ortopedistas não pediram. Meu ortopedista novo se despede com um beijinho na bochecha.

Meu ortopedista novo apareceu na minha vida depois que meu joelho saiu do lugar de novo. Só doeu metade da dor da primeira vez. É uma piada. Mas é verdade também. Meu ortopedista novo disse que minha patela é errada, sempre foi errada, deve ter nascido errada. E que um dia ela ia sair do lugar. E que é mais ou menos nessa idade que sai do lugar mesmo. Meu ortopedista novo disse que eu estou no limite. Mais de duas luxações em um ano e tem que operar com certeza. Meu ortopedista novo precisa ver os exames novos pra começar o tratamento do zero.

Meu ortopedista novo tem uma foto na internet ao lado de um esqueleto de dinossauro. Meu ortopedista novo me mandou usar um outro tipo de joelheira. A joelheira nova custa centenas de reais. Meu ortopedista novo diz que meu pé direito é um pouco torto. E que se eu tivesse pernas de tesourinha seria muito pior. Eu tinha pernas de tesourinha quando era criança, usei uma sandália ortopédica para corrigir. Devia ter usado uma bota, mas minha mãe mandou fazer branca e com uma abertura para os dedinhos pra não ficar tão feia. A bota ortopédica não combinava com nenhuma das minhas roupas.

Meu ortopedista novo mexeu o joelho esquerdo em todas as direções e perguntou se eu sentia apreensão. Depois mexeu o joelho que saiu do lugar em todas as direções e perguntou se eu sentia apreensão. Sim, se apreensão for a mesma coisa que um medo que faz meu coração pular, sim, apreensão.

Eu odeio ter um ortopedista novo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Estou atrasada com os comentários.
O post novo é velho.
O blog não vai acabar, eu gosto dele, gosto de ter um blog.
Mas eu não tenho como manter a frequência de postagens de 2007.
Eu já pensei que o natural é migrar para o Facebook, escrever lá coisas pequenas, como eu fazia antes aqui, mas nem todo mundo está lá, não funciona direito como arquivo, não é igual.

Então o blog fica aqui, meio abandonado, sem entender o que aconteceu com ele. Acontece. Muitas vezes eu também demoro a entender o que aconteceu e a decidir pra onde eu vou. E enquanto isso a gente vai indo, eu, o blog, todo mundo.

Eu tenho um ex por quem eu me apaixonei assim que vi, ele tava com uma camiseta de banda. Eu não sei se está certo chamar esse cara de ex, mas eu não tenho um outro nome. Ex significa pessoa que deixou de ser alguma coisa. Alguma coisa era bem o que ele era. Ele nunca teve nome e quando acabou virou ex, só, ex sozinho, sem explicação do que ele deixou de ser.

Ele estava com uma camiseta da minha banda preferida, se eu tivesse que escolher um disco só pra ouvir pro resto da vida seria deles, uma música só também. Muito tempo depois eu contei pra ele que me apaixonei por ele assim que vi a camiseta. Eu não sei se disse "me apaixonei", é bem provável que não, porque com ele eu só usava amor por escrito. 

Mais tempo ainda depois, ele me deu uma camiseta igual a dele. Eu poderia ter dado muitos significados à camiseta, mas não encontrei nenhum naquele momento e nem muitos momentos depois daquele e agora isso não importa mais.

Agora eu acho, isso já faz bastante tempo, agora eu acho que ele me deu a camiseta porque me entendia melhor do que eu entendia a ele.

A gente era igual, um monte de distorção. Agora eu acho, já faz bastante tempo, que aquela camiseta era para me explicar por que não, por que nunca, mesmo que ele não soubesse.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Oi!

Obrigada pelas mensagens e comentários gentis.

=) S2

Eu odeio ar condicionado, digo pra minha analista, evito ao máximo. Estamos falando da casa dos meus pais. Eu odeio ar condicionado. Ela pergunta se é por causa das minhas alergias. Sim, também. Odeio nariz escorrendo, acho um frio falso, o ar fica seco demais, não gosto, evito o quanto posso.

-Ele gostava de ar condicionado?

Levo um susto, há tanto tempo não falamos disso. Ela não disse "ele", usou o nome. Se usa "ele" a esta altura da minha vida eu fico realmente perdida, não tenho nem ideia de quem estamos falando. Ela usou o nome, eu levei um susto. Acho que quer saber como nós dormíamos juntos.

-Acho que gostava. Acho que sim, não me lembro. Acho que no segundo apartamento não podia quebrar a parede pra instalar. Eu não lembro, posso estar inventando essa memória.

Posso estar inventando essa memória e posso ter inventado tantas outras, é sempre engraçado perceber.

domingo, 7 de dezembro de 2014

As pessoas me perguntam se ele não vem. Agora eu tenho que dizer que não, que não vem, não vem mais. É a primeira vez na minha vida que eu não disfarço a minha cara triste, estou prestes a chorar. As pessoas me abraçam, dizem que sentem muito. Eu também sinto muito, sinto muitíssimo. Algumas pessoas me perguntam por quê. Eu não sei o que dizer, porque o que eu sei dizer não quero dizer em voz alta.

Então eu digo que essas coisas acontecem.

sábado, 22 de novembro de 2014

Quando eu comprei plantas para a minha casa, foi aí que ela começou a ter mais cara de casa. Algumas pessoas me disseram que planta dá muito trabalho e eu devia comprar apenas cactos e suculentas, que são mais fáceis de cuidar. Eu achei engraçado. Todo mundo sabe que dá trabalho. Quando você resolve ter plantas, trabalho é uma das coisas que você quer.

Bom. Minhas plantas estavam lindas, bem lindas.




Até que a minha avenca morreu.

Fui consolada, me disseram que avencas são difíceis mesmo. Algumas pessoas me disseram para comprar outra avenca e começar de novo; outras, que eu devia escolher uma planta diferente, uma planta mais fácil.

Eu não fiz nem uma coisa nem outra. Ouvi o terceiro grupo de pessoas, que disse que às vezes as plantas morrem e voltam a viver. Como uma pessoa que todo dia pensa "esta semana eu vou pesquisar tudo sobre as plantas que tenho em casa" e nunca faz isso, eu simplesmente continuei regando a avenca como se nada tivesse acontecido. Como se ela não tivesse morrido, não tivesse me deixado.

Hoje, na hora de regar minhas plantas, notei que havia um galhinho novo na avenca. Talvez ela fique linda de novo, talvez não. O que eu queria dizer é que a comparação entre minhas plantas e meus relacionamentos certamente foi por água abaixo com esse galhinho.

Hehe.

domingo, 16 de novembro de 2014

Fui fazer minha matrícula na academia nova e a moça perguntou minha profissão. Pela primeira vez eu não respondi automaticamente. Na verdade, eu fiquei em silêncio um pouco, depois disse que trabalhava numa editora de livros didáticos.

-Não tem isso aqui.
-Tem editora? Põe editora.
-Tem editora de imagens.
-Não, não é isso não.
-...
-Olha, professora tem, né? Põe professora, então.

...

Eu tava no ônibus voltando pra casa, lendo um texto para um curso no trabalho. Quando terminei, guardei o texto na bolsa, o senhorzinho ao meu lado perguntou o que eu estava lendo.
-É pra faculdade?
-Não, é para um curso no meu trabalho.
-Ah, você já trabalha?
-Trabalho.
-E sobre o que é o texto?
-É sobre educação digital, mais ou menos isso.

Faz dois meses e meio que eu não consigo mais explicar o que eu faço, depois de passar dez anos fazendo isso com uma palavra só.