segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A minha mãe tem uma mania de luz de emergência. Durante toda a minha vida ela me deu lanternas para colocar na bolsa. Não importa quantas vezes eu diga que tenho uma lanterna no celular, eu sei que vou continuar ganhando luzes para usar numa situação de emergência em que eu tenha que me movimentar no escuro.

Quando eu saí de casa, a primeira coisa que ela me deu foi uma lâmpada de emergência, daquelas que você deixa carregando e liga quando acaba a luz. Não contente em saber que na minha casa tem uma lâmpada de emergência, ela me deu uma lanterna de emergência, uma lanterna que não usa pilhas, que eu tenho que carregar a cada três meses. Eu sei que tenho que carregar a lanterna a cada três meses porque minha mãe me obrigou a ler o manual dela mas, embora eu seja uma pessoa organizada - eu faço rodízio de uso de todos os talheres, copos e pratos da casa para que nenhum tenha mais marcas que os outros (OK, e um pouco obsessiva)- embora eu seja uma pessoa organizada, eu não consigo manter as luzes de emergência carregadas.

A minha mãe me pergunta regularmente se as minhas luzes de emergência estão carregadas. Eu digo que sim, mas a verdade é que eu não tenho ideia.

Outro dia faltou luz pela primeira vez à noite na minha casa. Eu tinha acabado de chegar do trabalho cheia de planos de fazer uma massa com abobrinha e bacon mas, mesmo tendo luzes de emergência suficientes para iluminar todo o meu pequeno predinho antigo, o que eu fiz foi correr pra tomar banho, jantar azeitonas e salame e me enfiar na cama esperando o sono chegar.

A luz voltou em 20 minutos. Antes do sono.

sábado, 15 de agosto de 2015

Os dois melhores conselhos da minha semana vieram da mesma pessoa:
1. Não deixa sua lua em escorpião espalhar a peste negra;
2. Que tal comemorar o que dá certo?

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Tive a sorte de pegar o trem mais uma vez com a Gisele, a vendedora de massageadores que entra no vagão falando "preparem seus ouvidos. preparem seus ouvidos." e quando você vê ela já tá gritando "EEEEEII! Meninaaas, chegueeei!"
A Gisele é uma pessoa incrível que anda pelo vagão dizendo "com licença, com licença" e fazendo massagem em todas. Então eu comprei um.

A mulher sentada ao meu lado virou pra mim e perguntou:
-Com quem você vai usar? Com o marido ou com o amante?
-Oi?
-Ah, com os dois, né? hahahahahaha.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Tive um problema com a operadora do meu cartão de crédito e liguei pra cancelar o cartão. Ao contrário do que as pessoas me contam que acontece quando elas ligam pra cancelar o cartão, ninguém tentou me convencer a ficar. Ninguém me ofereceu nada pra eu desistir de ir embora e tentar de novo.


Eu liguei e disse "não gosto de ser tratada assim. eu não quero mais qualquer relacionamento com vocês" e a atendente não disse nada além de "já solicitei o cancelamento do cartão." Uns dias depois eu recebi uma carta em casa confirmando que meu cartão havia sido cancelado e que eu devia destruir "o plástico mencionado".

Foi tudo tão fácil, foi tudo tão simples.

domingo, 19 de julho de 2015

As pessoas me oferecem bebida e comida. Não parecem querer nada em troca. Dois homens no trem me ofereceram amendoim em dois dias diferentes. Num show, uma mulher chegou perto de mim e perguntou se eu bebia smirnoff. Disse que não bebo vodca, eu não bebo mais vodca, descobri outro dia. Só de ver a vodca caindo no copo meu estômago fica embrulhado, um arrepio de pavor. Eu costumava tomar pura, não tomo mais vodca. Eu disse que não bebo vodca, não disse todas as outras coisas, estômago embrulhado, 30 anos, arrepio, porque eram too much information.

Um homem parou perto de mim e quis fazer dois comentários. Um era que ele tava achando legal me ver sozinha no show, o outro é que ele nunca tinha visto uma fumante abanar a própria fumaça. Eu expliquei que não sou fumante, comecei a fumar porque as pessoas são chatas. As pessoas são chatas demais, então eu comecei a fumar em eventos sociais, porque as pessoas são chatas e odeiam fumantes. E que quando eu evoluir eu vou jogar a fumaça bem na cara das pessoas, pra elas deixarem de ser chatas, como são chatas, mas que por enquanto eu ainda fico abanando a minha própria fumaça. Não sei se ele entendeu minha proposta. Daí ele foi embora.

Roubaram meu anel no banheiro. Foi inacreditável. Eu estava usando dois anéis juntos, coloquei na pia para lavar as mãos. Não eram anéis de ouro, se fossem eu não os teria colocado na pia, teria lavado as mãos com eles. Um anel em cima do outro. Chegou uma mulher com muita pressa, puxando o papel com violência, eu esperei, sequei minhas mãos, olhei para baixo, só um anel. Achei queo outro tivesse caído no chão, na minha bolsa, no meu casaco. Não. Olhei o banheiro inteiro. Acho que roubaram, inacreditável.

Passei pelo homem de suéter de novo, ele me deu dois beijinhos e desejou sorte na vida. Disse assim mesmo, "boa sorte na vida, renata." Não entendi nada, mas agradeci. Que fora engraçado. Depois no bar ele apareceu de novo. Eu não devia fazer isso, mas vou ver se acho aqui um cartão meu, você me liga?, a gente tem que ser pelo menos amigo de facebook. Ele me deu o cartão, foi embora. Eu estou trabalhando, ninguém pode me ver fazendo isso. Com certeza um agente secreto.

Mandei mensagem, a esta altura eu já estava limpando uma mancha de mostarda da minha almofada nova. De manhã, entrei no site. Ele apresentava um programa que eu assistia, tem mil anos isso. Como eu sou tonta.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Eu sou um cliché da mulher de 30. É o que eu penso enquanto resolvo jantar só sobremesa. Sou um cliché da mulher de 30 atrapalhada protagonista de uma comédia romântica quando sujo meu cabelo todo de doce de leite. Talvez na próxima cena alguém sinta um cheiro doce, resolva investigar de onde vem e descubra que vem de mim. Só que eu não sou a protagonista atrapalhada de uma comédia romântica e no caminho para casa eu fico tensa reorganizando todos os meus planos porque agora a primeira coisa que eu vou fazer quando chegar em casa é tomar banho e não fazer bolinhos de arroz, agora só depois do banho eu vou fazer os bolinhos de arroz.

Você e eu e todos nós, os protagonistas clichés das nossas próprias vidas. Eu pensando em mim mesma enquanto compro leite fresco, a última das minhas frescuras, dos gastos que eu não preciso fazer mas faço, porque eu sou sozinha, acordo todos os dias às 6:30 então eu mereço leite com gosto de leite.

Você e eu e todos nós, comprando um livro do Caio Fernando Abreu, morrendo de medo de ser (mais) cliché. Protagonista da próxima cena cliché com uma vitrola, uma taça de vinho, meu robe florido. De que filme eu saí, que história eu estou contando?

Eu pensando que quero escrever sobre Lisboa, a única cidade depois de Paris que me deixou de coração apertado na hora de ir embora. A única cidade depois de Paris que eu deixei sabendo que ia voltar o quanto antes. Lisboa, a única cidade que eu digo pra todo mundo ir, só se pode amar Lisboa. Paris eu evito recomendar. Uma parte por ciúme, uma parte pra evitar o cliché. Mas eu vou chegar em casa, taça de vinho, meu robe florido e vou adiar mais uma vez escrever sobre Lisboa.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Love the only way I know how

Enquanto eu procuro em outro lugar o que eu sentia com você, fico tentando identificar o que era. A gente tentou não dar nome, você tentou, eu também, a gente tentou não dar nome, dizer que não tinha nome o que era tão nosso. Teve aquela vez em que você tentou usar a palavra empatia. Aliás, fuck you for that. Aquilo que não tinha nome. Um quase que não dava tempo de fechar a porta. Aquilo que era, mais do que tudo, uma urgência. Para mim, uma urgência.

Eu me pergunto se vou encontrar essa urgência de novo na vida. Talvez não. Pensar que ela talvez só exista com você é tão cruel, porque pra você eu nunca mais vou voltar, nada faz mais sentido do que isso. Mas talvez ela só exista com você. Nunca foi tão urgente querer alguém.

Um coração mergulhado no azul. O meu, como o seu.

You bring out the Mexican in me.
The hunkered thick dark spiral.
The core of a heart howl.
The bitter bile.
The tequila lágrimas on Saturday all
through next weekend Sunday.
You are the one I'd let go the other loves for,
surrender my one-woman house.
Allow you red wine in bed,
even with my vintage lace linens.
Maybe. Maybe.

For you.

do poema You Bring Out the Mexican in Me, Sandra Cisneros (minha poeta preferida)