segunda-feira, 4 de abril de 2016

Quando você passa manteiga na torrada pra mim, alguma coisa dentro de mim derrete. Você abre a gaveta do criado-mudo e tira de lá meu anel, pergunta se eu não dei falta. Eu sabia onde estava. E quando me vê saindo do banheiro com meu xampu e meu condicionador você pergunta por que eu não deixo os dois no seu banheiro. E eles ficam lá, do lado do seu xampu anticaspa do qual eu tentava escapar.

Quando você abre a porta e eu ouço Chico Buarque e você me puxa e a gente dança de porta aberta ainda. Quando eu digo que vou te visitar no mês que você vai passar trabalhando em São Paulo você não se assusta. Você não acha cedo. Você não desconversa. Em vez disso, você pergunta que fim de semana eu vou. Se eu comprei a passagem. Quando eu vou comprar a passagem. Que horas eu chego em Congonhas. Você faz uma lista de restaurantes pra eu escolher onde nós vamos almoçar, onde nós vamos jantar, porque bastou dizer uma vez que eu adoro comida para você não esquecer mais.

Você vai me resgatar rindo enquanto eu fico paralisada com o dinheiro na mão, com medo de pagar, naquele lugar aonde você me levou pra tomar a saideira no domingo, porque eu tenho medo do dono do bar. A gente ri do que eu disse, a gente ri do que você disse. A gente entra rindo no táxi e sai rindo do táxi.

Você pergunta se eu estou feliz. Você diz que consegue ver o meu sorriso no escuro.


segunda-feira, 14 de março de 2016

Estou ainda um pouco chocada com o quanto São Miguel dos Milagres é linda. Eu tinha uma expectativa muito alta, há anos pesquiso sobre a cidade, sempre adiando ir por um motivo ou outro. E chegando lá, a praia é igual a todas as fotos que eu vi. Linda, linda, linda.




Como uma amiga já tinha me avisado, todos lá são casais. Eu fui sozinha e é um lugar ótimo se você quer uma praia linda e deserta e não quer fazer nada além de descansar e comer bem. Acredite quando as pessoas disserem que é uma praia deserta. Em alguns momentos eu tive que pensar "hmm, melhor esperar alguém chegar na praia pra não entrar no mar sozinha depois dessas caipirinhas de seriguela." Mas eu esperava, esperava e não chegava ninguém.


Eu fiquei na pousada Villa Pantai e gostei muito. O quarto era muito confortável, todos da pousada eram muito simpáticos e ela fica bem na praia, em Porto da Rua. O café da manhã é maravilhoso, mas, bom, Nordeste, né? Se tem café-da-manhã ruim por lá, eu nunca vi. 
Um dos garçons, toda vez que trazia meu jantar pra mesa dizia "Olha o papazinho!" Eu me sentia em casa (dos meus pais) (há uns 30 anos). Mentira. Meus pais até hoje chamam comida de papá. ;)

Lá tem pousadas na cidade, que é bem pequena, você não vai andar muito pra ir pra praia. Mas, sinceramente? Fica na praia. Pé na areia, vale cada centavo acordar de frente pro mar.





O mar é lindo, é de uma cor verde azulada tão bonita que é quase inacreditável. Quando a maré tá cheia ele fica uma delícia, com ondinhas mas nunca bravo.

O motorista do transfer da volta pro aeroporto era muito falador. Me contou fofocas de toda São Miguel dos Milagres. Como o motorista da ida, que era mais calado, ele também morou um tempo em Maceió e não se adaptou, a vida lá é muito corrida e cara.

-Essa cidade por onde estamos passando é Passo de Camaragibe, a terra de Aurélio Buarque de Holanda, aquele do dicionário. Se já é essa calmaria hoje, imagine naquela época. Eu fico me perguntando como foi que Aurélio pensou em tantos significados para as palavras. Será que foi olhando pro céu, foi?

Deve ter sido.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Eu me apaixonei por um homem que limpava meus óculos. Desde a primeira vez que nós nos vimos ele limpou meus óculos. Não me deixou limpar num guardanapo, deu um sorriso de canto de boca, limpou com a flanela que ele carregava para seus próprios óculos e me devolveu os meus.

Quando ele tirava os óculos dele, fazia a mesma cara que eu faço quando tiro os meus. Os olhos apertados, a pouca audição. Sem óculos ele começava a frase com "Então, Renata..." e contava uma longa história sobre seu dia.

Eu gostava que ele era organizado e a casa estava sempre limpa e a cama arrumada. Eu gostava que ele me mandava fotos de todas as refeições. Eu gostava das fotos dos discos quando chegavam pelo correio.

Na primeira vez na casa dele eu tirei meus óculos e só fui procurar de novo quando meu táxi chegou, o disco fazendo toc-toc na vitrola, meus tênis perto da cadeira em frente ao jardim.

Na primeira vez que a gente se viu ele se atrasou porque estava cuidando do limoeiro e nós fomos num bar que eu detesto, mas não tive coragem de dizer não. Quando a gente saiu, de mãos dadas, eu me senti boba e jovem e eu queria muito escutar o disco amarelo do The National, mas eu queria muito também tirar meus óculos.

Chegou o dia que ele respondeu só Hmm e eu senti tanto que me deu vontade de tirar os óculos. Ou de ficar com eles sujos, sem limpar.

Eu me apaixonei por um homem que limpava meus óculos até que eu tive que deixar pra lá.

domingo, 22 de novembro de 2015

A primeira vez que eu usei um Uber foi porque tinha um compromisso em Santa Teresa e, não sei se você conhece Santa Teresa, mas todos os taxistas conhecem e odeiam e não querem te levar lá e quando levam vão reclamando do começo ao fim.

Bom, mas aí pedi e estava lá, esperando um carro preto. O carro preto chegou e eu fui logo abrir a porta. Não era um Uber não, tá bom? Não era não. Eu abri a porta do carro de uma mãe que estava buscando o marido e os filhos, que estavam bem ao meu lado na calçada e me olharam chocados. Eu gostaria de dizer que foi a primeira vez que eu tentei entrar no carro de alguém que não estava ali pra me buscar, mas quem eu vou enganar se eu disser isso?

Eu tomei uma cerveja depois do show, tava meio cheio então eu resolvi ir andando pra saída. O meu plano, eu sempre tenho um plano, era jogar a garrafinha fora, mas na saída não tinha lixeira. Eu não queria descer as escadas todas de novo pro pátio, o carro já ia chegar. O carro chegou e eu continuei sem achar uma lixeira. E foi assim que eu cheguei em casa com uma garrafa vazia dentro da minha bolsa.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Depois da noite que nós passamos lendo poemas um para o outro.

Depois que você disse o quanto amava Bukowski e descreveu o que sentiu quando leu Bukowski pela primeira vez. A mesma sensação adolescente que eu tive. Você pronunciando Bukowski como os americanos pronunciam Bukowski. Eu também queria chutar tudo.

Depois que você acordou e me disse que estava ouvindo a minha leitura de Bluebird e como era bom me ouvir dizer um poema de manhã.

E porque você começou lendo Manuel Bandeira e eu não tinha como resistir.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Pedi comida. Quando chegou e eu desci pra pegar, encontrei só a moto do entregador em frente ao prédio, sem entregador. Eu fiquei olhando pros lados, pensando se não tinham tocado o interfone do apartamento errado.

Daqui a pouco vem o entregador correndo, uma empada na mão.
-Oi, Renata? Desculpa, é que eu tive que comer essa empada.
-Hmm?
-Eu precisava comer essa empada. Um camarada meu é segurança ali daquela casa de festas, ele me gritou, me chamou pra comer uma empada. Eu não podia recusar. Ele ia ficar até chateado.

domingo, 11 de outubro de 2015

Eu sou viciada em assoviar. Quando percebo, tô assoviando. Só adulta me disseram que assovio incomoda as pessoas. Eu nunca saberia, na minha família todos assoviamos e a gente ainda tem um assovio próprio pra chamar uns aos outros, avisar que chegou em casa, que é o mesmo assovio que meu avô usava pra avisar que estava chegando.

Bom, aí aqui na minha casa eu assovio o tempo todo, porque eu amo mesmo assoviar. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, assoviar.

E eu tenho um vizinho que também adora assoviar, parece. Toda vez que eu assovio na copa ou na cozinha ele acompanha lá do apartamento dele.