quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sobre o meu apartamento,

o que é difícil:
-ocupar os espaços. Na casa dos meus pais, por muitos anos, mais de 20, não tinha tevê na sala. tinha uma tevê em cada quarto e ficava cada um na sua. não existia isso de ficar sentado no sofá com a família vendo novela. Na minha casa, o sofá ainda não chegou e não tem tevê. São dois quartos, um é o de dormir e o outro é um escritório/quarto de hóspedes. Na casa dos meus pais, eu tinha um cantinho de trabalho com meu computador, mas era tudo no meu quarto, num lugar só. Era o lugar onde eu mais ficava. Agora, com a casa toda pra mim, ainda é difícil ocupar todos os espaços. Eu fico lutando pra não ficar só no quarto, mas por enquanto só uso a sala para refeições, enquanto o sofá não chega e me obrigo a trabalhar no escritório.

-não fazer estoque. Quando meu vô morreu, eu lembro de caminhões de comida chegando na minha casa, outros caminhões de produtos de limpeza. Entraram na casa (presta atenção que não era uma despensa apenas) que ele mantinha como depósito de compras e viram o tanto de coisa que ele tinha lá e saíram distribuindo. Meu vô gostava de fazer estoque. Se você precisar de uma torneira, ainda tem lá, no estoque dele, de obras. Eu gosto de fazer estoque. Eu não sei comprar uma caixa de sabão em pó. Eu preciso de três. Eu preciso saber que nunca na minha vida eu vou abrir o armário e achar uma lata só de leite condensado. Eu preciso de estoque. E, embora meu apartamento não seja pequeno, eu não tenho onde guardar tanta coisa assim. Não fazer estoque é uma luta diária.

-saber quando o lixeiro passa. Eu moro num predinho antigo que não tem porteiro. Cada um coloca seu próprio lixo pra fora. Eu achei que o lixeiro aqui passasse nos mesmos dias que no bairro dos meus pais, mas parece que eu me enganei. É claro que eu posso perguntar para um vizinho ou para o síndico, mas eu nun-ca vejo ninguém no prédio e fico sem graça de tocar o interfone só pra perguntar isso, então fico prestando atenção nas outras casas da rua, pra ver quando elas colocam o lixo no portão. Até agora, não achei um padrão.

o que é fácil:
-cozinhar todo dia. Muita gente me disse que eu ia ficar com preguiça, ia comer congelados e delivery. Eu não me acostumo. Na casa dos meus pais eu já cozinhava quase todos os dias. Quando tô com preguiça, eu faço uma coisa bem rápida, uma massa com um molho fácil ou um sanduíche. Já pedi delivery aqui, mas porque estava com vontade de comer aquele prato daquele restaurante e na primeira vez foi porque não tinha gás e aí deu preguiça mesmo de pensar no que fazer só com o forninho elétrico. Também é bom notar que eu estou em Nova Iguaçu, o conceito de rapidez não chegou aos serviços de entrega daqui. Se eu estiver com fome e preguiça, é muito mais simples fazer uma massa em casa mesmo.

-ficar sozinha. Eu amo. Mas amo. Mas amo muito. Adoro ter companhia. Ainda não recebi amigos aqui (não tem sofá!), mas na casa dos meus pais eu recebia, fazia jantares, festas, sempre gostei. Quero sempre receber amigos na minha casa também, não me entenda errado. Mas eu amo ficar sozinha. Amo não ouvir nenhum barulho que não seja o meu (e o do trem, que eu moro em frente à linha férrea). Só escuto barulho dos vizinhos quando vou à cozinha e mesmo assim é de longe. Eu amo ficar sozinha e estou me sentindo muito feliz tendo tanto espaço e silêncio só pra mim.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

e se fosse um par de crocs?

Eu tava aqui em casa ouvi um PLEC e logo depois vem o Sk8erBoy: "Meu boné caiu lá embaixo."

-Oi?
-Meu boné. Ele caiu lá embaixo, caiu pela janela.
-Como??
-Caiu. Você acredita?
-Não.
-Como a gente pega?
-Não sei. A gente não pega. Não tenho a chave do portão que dá pra lá.
-Pede pro síndico?
-Sk8erBoy, vamos fazer o seguinte? Eu te dou um boné, outro boné. Tá?
-Não!! Aquele boné é único! Você não tá entendendo. Ele foi feito pra mim. Um antigo patrocinador fez pra mim. Não existe outro no mundo. Foi feito pra mim.
...
No dia seguinte olhei pela janela e o boné não estava mais lá. Lá fui eu tocar o interfone do síndico e perguntar se "o senhor viu um boné preto lá na parte de trás do prédio? meu namorado de 32 anos deixou cair eu não sei como." Depois de ouvir "eu já peguei e até tava pensando que era de vocês mesmo." eu fui embora pra minha consulta com o ortopedista.
...
À noite, eu estava conversando com amigos e nós ficamos discutindo se era necessário usar a palavra "namorado" nesse contexto. Acho que ficou meio decidido que pra nós usar namorado/marido/noivo/pessoa com quem eu saio às vezes era desnecessário e um pouco cafona. Essa explicação: desnecessária. A gente prefere só usar o nome da pessoa. Eu me defendo (de mim mesma, não dos meus amigos), dizendo que ali, falando com o interfone, não dava pra simplesmente dizer "o Sk8erBoy deixou o boné cair pela janela", porque o síndico não sabe o nome dele. Se fosse uma conversa cara a cara, seria mais fácil, ele logo entenderia quem é o Sk8erBoy da história ou não se importaria.
-Mas você poderia ter dito que o boné era seu.

Um amigo contraargumentou. Eu podia ter dito que o boné era meu. E eu podia mesmo, né? Eu podia ter simplesmente dito que o boné que caiu pela janela era meu, que eu deixei o boné cair pela janela, será que o senhor pode pegar pra mim, por favor?

É verdade, eu podia ter dito que era meu. Mas aí são as escolhas da vida, né? Naquele momento, eu precisava escolher entre dizer que eu tenho um namorado e dizer que eu uso boné (e deixo ele cair da janela).

Eu preferi o namorado.


lembrei desta entrevista da glória maria. glória, os perfis de casal no facebook não mostram, mas somos muitos, dá aqui a mãozinha. S2

terça-feira, 8 de abril de 2014

Em duas semanas várias coisas deram errado. Embora eu estivesse muito feliz com a casa e com tantas coisas, eu levei uns tropeções até o meu joelho sair do lugar e eu chegar em casa numa segunda-feira depois de trabalhar o dia inteiro, pra trabalhar mais um pouco e o computador não ligar.

E meu joelho dói e não dobra e depois não estica e dói e pesa 30kg e eu não aguento mais andar me arrastando e eu chego a estar torcendo pro médico fazer logo uma punção e eu só quero que passe e o Windows não inicia.

O departamento de TI&Sk8, também conhecido como aquele cara do Tinder que foi me encontrar com uma camiseta furada com estampa do dedo do meio e logo no carnaval perguntou "e aí, a gente vai passar junto ou você quer debandar?", bom, esse. O departamento de TI&Sk8 veio e em 15 minutos resolveu o problema, prometendo que no fim de semana ia consertar o computador de um jeito que ele ainda duraria muito tempo.

E eu chorando. Porque tá tudo dando errado. Tudo que dava certo agora dá errado e tudo que dava errado dá certo.
-Do que é que você tá falando, Renata?
-Eu nunca tive nenhum problema com meu computador, meu corpo sempre funcionou. E minha vida amorosa não dava muito certo, né? E aí você apareceu.
-E aí todo o resto começou a dar errado?
-É, mais ou menos isso.
-O seu joelho saiu do lugar. Pelo menos agora eu tô aqui pra colocar gelo nele pra você.

O.o --->; minha cara na maior parte do tempo. esperando a pegadinha.

e ainda tomei um antiinflamatório diferente e acordei conseguindo dobrar o joelho!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

-Como foi na terapia?
-...Como foi...?
-É, foi boa?
-Ah, foi.
...
-Você falou de mim? Na terapia, você falou de mim?
-Falei.

=)

E quando eu cheguei, já tinha gás (e banho quente).

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Eu estou me esquecendo dele. Não da existência dele nem do rosto, mas estou me esquecendo dele. Me lembro da voz e de coisas que ele disse, e da risada. Mas não consigo mais imaginar coisas que ele diria ou do que ele daria gargalhada. Isso é esquecer alguém.

Eu não vou nunca saber explicar o que a gente teve e do que eu tive que fugir, sair correndo, porque nunca ia conseguir terminar de outro jeito. Se eu nunca soube explicar o que era, já nem consigo nos imaginar juntos. Eu não lembro direito o que a gente fazia juntos. Assistia tv? O que a gente conversava durante o jantar? Eu não me lembro, por mais que me esforce. Mas eu não me esforço muito. Isso é esquecer alguém.

A tela está na sala da minha casa nova. A tela que ele me deu, que eu escolhi. Na sala da minha casa nova, eu levei pra lá depois de um longo castigo em que ela ficou virada para a parede no meu quarto na casa dos meus pais. Levei para a minha casa nova e coloquei na sala, em cima do móvel amarelo, ao lado do pôster de zebra. Isso é esquecer alguém.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Das coisas mais difíceis num relacionamento, não vou entrar no mérito daqueles bloqueios profundos, deixa pra minha analista, das coisas mais difíceis:

-Dividir meu tempo. Eu estou tão acostumada a ter meu tempo só pra mim, ele está sempre tão preenchido, eu sou tão boa em não me deixar ficar à toa. E de repente preciso dividir o meu tempo, eu quero dividir o meu tempo, mas dá um trabalhinho. Agora gostaria de ler em silêncio, mas vou assistir a esse filme. Porque eu quero, mas mesmo assim, não é fácil.

-Usar batom de cor forte. Tantos batons vermelhos, vinho, rosa, coral que eu tenho. De tantos tons diferentes, eu gosto tanto deles. Mas não dá, né? E eu quero usar batom.

É aquilo, estou tentando. Todo mundo está, sempre.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Eu nunca fui boa em esportes. Na escola, era sempre a última a ser escolhida, muitas vezes sobrava. Já adulta, quando fui diagnosticada com depressão, minha analista disse que eu ainda sofreria com isso em outras fases da vida. Pelo meu histórico familiar, aquela não era uma depressão pontual. Eu podia passar a vida tomando remédio, mas ela achava que não, que com terapia, alimentação correta e exercício físico eu poderia controlar.

O exercício físico me ajudou em muitos corações partidos, em muitas depressões sem motivo. Eu aprendi a gostar do exercício e a me orgulhar de ter um corpo saudável, que funcionava. Mesmo não sendo atleta, eu subia ladeiras, pulava, corria, meu corpo me obedecia.

A festa de 60 anos do meu pai tava no final, eu me despedi da Hannah e voltei pra me despedir de novo. Não sei direito como aconteceu, mas eu me desequilibrei e virei o pé num degrau de 10 cm. Quando eu caí, senti e vi o meu joelho saindo do lugar.

Eu não pensei na dor. Eu não pensei na dor até chegar no hospital. Eu caí porque não sentia mais minha perna, as pessoas vieram correndo e eu disse "meu joelho saiu do lugar, eu preciso ir pro hospital." Enquanto eu caía, eu não pensava na dor, eu pensava "estraguei o meu joelho."

E esse pensamento, de estragar o meu joelho, de não ter mais um corpo saudável, o medo de pensar que poderia acontecer outras vezes depois dessa, esse pensamento, estraguei meu joelho, me deu um peso tão grande no coração que eu nem pensei na dor.

Eu mesma coloquei o meu joelho de volta no lugar, ainda em casa. Desci os três andares do terraço e entrei no carro sozinha, pra me levarem ao hospital. Pedi pra minha mãe buscar um analgésico e minha bolsa. Abri minha carteira, peguei minha carteirinha do plano de saúde e minha identidade. Eu não pensei na dor. Eu só senti dor quando cheguei no hospital e avisei que não ia conseguir sair do carro andando. Eu só senti dor de verdade na sala de medicação, porque eu nunca tinha estado numa emergência e eu nunca tinha tomado medicamento na veia. Meu corpo sempre funcionou.

Eu perguntei ao médico da emergência se eu ia poder correr de novo, se eu podia pular numa cama elástica. Ele disse "espera pelo menos uma semana." Mesmo que eu quisesse esperar menos, meu joelho dói pra dobrar, dói pra esticar, parece que ele tá tentando se reacostumar ao lugar dele. Mesmo se eu quisesse esperar menos, não foi isso que eu perguntei. Eu queria saber se meu corpo vai voltar a ser perfeito, a garantia de que isso nunca mais vai acontecer, de que eu posso confiar que estou pisando certo, posso confiar que meu joelho vai ficar no lugar. Eu preciso consultar um outro ortopedista, ele me diz.

Sim, foi a pior dor que eu já senti na vida. Quando saiu do lugar, quando eu botei no lugar. Foi a pior dor da minha vida. Mas não chegou nem perto de ser tão ruim quanto foi perder a confiança que eu tinha no meu corpo, que levei tanto tempo pra conseguir.