quarta-feira, 23 de julho de 2014

Eu, muito bocó, me achando grande coisa porque ouço Sepultura enquanto faço faxina, tinha certeza que era a pessoa mais moderna do meu predinho antigo sem elevador com janelas grandes e paredes grossas.

Daí tava subindo com os entregadores do sofá, passou um vizinho que eu não conhecia. Você que mora embaixo de mim? Bom, eu moro no 302. É embaixo de mim, sim, eu moro no 402. Oi, tudo bem, prazer, Renata. Eu sou o M.

Eu, a mais moderna do prédio onde só tem família, só posso ser eu. Meu vizinho de cima, um velhinho todo tatuado usando uma bolsa masculina.

Que boba. =)

sábado, 14 de junho de 2014

Outro dia eu estava no ponto de ônibus, veio um homem bêbado falar comigo. Falou coisas sem sentido, enrolando a língua e batendo na própria cabeça. Eu permaneci de pé, olhei para ele com uma cara muito séria e disse "não." Ele continuou falando coisas sem sentido e batendo na própria cabeça por um tempo, enquanto eu o ignorava olhando para o nada com uma cara muito séria, até ele se dirigir a outras pessoas que também estavam no ponto de ônibus.
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Há um tempo eu estava saindo com dois caras mais ou menos ao mesmo tempo. A gente estava bem no comecinho de qualquer coisa, eu com um e eu com o outro. Chegou um momento em que eu achei que tinha que escolher um dos dois e eu não escolhi o cara que disse que ia procurar minha marca preferida de pães-de-mel na viagem que ele faria, e sim escolhi o cara que me chamava de pedante e me fazia dar três pulinhos para São Longuinho quando encontrava algo que ele estava procurando, como o iPod perdido na casa dele que não tem televisão, como a minha.
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Quando o bêbado que falava coisas sem sentido, enrolando a língua e batendo na própria cabeça se aproximou do homem que esperava o ônibus comigo, o homem saiu andando, atravessou a rua, apressou o passo; o bêbado atrás dele, falando coisas sem sentido e batendo na própria cabeça.
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O que aconteceu foi que o cara que perguntava no que eu pensava quando eu sorria com o canto da boca sumiu. Ele sumiu depois que eu disse que tinha comprado um presente para ele, o que me fez achar que ele tinha ficado assustado. O presente era só um pote de massinha e mais tarde eu descobri que ele também estava saindo com duas mulheres ao mesmo tempo e escolheu a outra, não a mim.
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A perseguição do bêbado durou um certo tempo. Para mim, pareceu um tempo curto, numa cena ridícula, mas para o homem sendo perseguido deve ter parecido muito tempo. Finalmente o ônibus chegou, e o homem perseguido atravessou a rua de volta para o ponto.
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A outra mulher, a que foi escolhida, partiu o coração do cara que leu um texto que eu havia enviado para ele, um texto do qual eu mesma não havia lido nada além do título e por isso ele me chamou de cretina, e depois comentou comigo o texto todo, bom a outra mulher partiu o coração dele, então ele começou a tentar se reaproximar de mim.
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Enquanto eu observava a perseguição do bêbado com o homem apavorado, eu pensei em quantas vezes na minha vida eu bati o pé no chão e disse "não, você não vai fazer isso comigo" apenas porque eu achava que essa era a postura que eu devia ter diante da vida e das coisas que acontecem nela. Quantas vezes eu poderia simplesmente ter feito o que eu queria, que neste caso era atravessar a rua com medo, mas me forcei a ser forte e dura, sendo forte e dura comigo mesma.

O homem perseguido atravessou a rua rindo de si mesmo, daquela situação maluca acontecendo às nove horas de uma sexta-feira, balançando a cabeça. Ele entrou no mesmo ônibus que eu.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Acordei e fui molhar as plantas, que agora eu tenho plantas. Enquanto fazia isso, pensei que eu não tinha a mínima ideia do que eu estava fazendo. É assim que se molham plantas? Eu realmente não tenho ideia.
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Precisava curar a ressaca, então fui almoçar no restaurante que serve bife à milanesa com arrozinho e feijãozinho. Fiquei lendo meu livro sobre um triângulo amoroso entre pessoas de 22 anos. Por que não? E na outra mesa tinha três amigas de 22 anos e elas pediram três pratos iguais, achando graça de tudo e eu comecei a chorar. Eu tenho 31 anos e passei a noite deitadinha no chão do banheiro porque estava geladinho e porque, opa, meu fígado. Depois comi morangos e fui dormir já amanhecendo.
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Me despedi de uma amiga, saí do metrô e ela ficou. Até domingo. Parecia que era outra pessoa que estava dizendo aquilo, outra pessoa que estava no metrô, outra pessoa carregando a minha bolsa, outra pessoa combinando um almocinho no domingo.
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Às vezes eu fico pensando como cheguei aqui, me esqueço mesmo, não sei como vim parar aqui.

Mas daí é segunda à noite e eu estou ouvindo Violent Femmes e dançando na sala e, posso não saber direito como cheguei, mas quero ficar.

Sobre o meu joelho e dor: fico pensando que, muito mais do que quando saiu do lugar, meu joelho doeu mesmo quando voltou pro lugar. A dor de colocar no lugar e ele entender que tinha que ficar ali, se acostumar de novo ao lugar que sempre foi dele. Uma dor muito maior.

Então tem o susto e tem a dor. E a dor de tudo se ajeitando é tão grande.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Todos me avisaram que pra encher uma casa eu precisaria comprar muitas coisas. Eu até acreditei, não é que eu tenha duvidado, não. Eu acreditei, mas, sério, eu não conseguia imaginar que precisaria de tantas coisas. Não trouxe nada além da minha estante e do meu espelho da casa dos meus pais e achei realmente que poderia comprar os móveis essenciais de uma vez e ir comprando as coisas pequenas aos poucos.

Eu pude, eu posso. Mas pra cada lugar que eu olhe da casa vejo um canto vazio onde cabe uma mesinha, uma planta, um quadro. Coisas que eu disse que compraria depois: mesa de centro, tapete, aparador. Não tem depois, eu quero agora.

Daí eu vou e compro uma cabeça de elefante pra pendurar na parede da sala (porque sim, me deixa), eu penduro e ela está gritando, pedindo socorro, ela precisa de um aparador do lado dela, ela não quer viver só do lado do sofá.

Daí minha prima confirma que vem ao Brasil com o marido e vão ficar na minha casa (ganhei a concorrência de hospedagem!), eu corro e compro o sofá-cama (é muito confortável, eu juro, eu testei), coloco no escritório e acho que vai ficar tudo bem. Mas não vai. Porque o sofá-cama é marrom, porque era a cor mais escura disponível (coisas que me perseguem: farelos e líquidos que espirram e mancham) e, sendo marrom, ele pede almofadas azuis-celestes para alegrar sua existência. E uma mesa lateral. Com um vaso de planta. Ele pede também, quem sabe, um tapete, não custa nada.

Mas custa, né? O processo todo é uma delícia, mas como custa.

A sensação que eu tenho é que, por mais que eu compre coisas e encha a casa, ainda assim vou passar os próximos cinco anos da minha vida comprando corujinha de louça e mesa lateral.

 
 
 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Passei por uma casa que, com a porta aberta, tinha o cheiro da sua casa. O cheiro exato da sua casa, das suas casas.

Minhas pernas chegaram a ficar bambas de saudade. Isso e meu joelho destruído.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Eu tirei meus olhos* óculos na hora de conversar e explicar o que eu estava sentindo. Eu sei que foi uma trapaça. Ele continuou de óculos. Eu sei, porque eu uso óculos minha vida quase toda, que foi uma trapaça, foi pra deixar as coisas mais fáceis para mim. Se eu pudesse ter dito em inglês, em francês, em japonês eu teria dito. Se eu pudesse ter dito numa língua que não era minha eu teria dito, qualquer língua. I've got to go. Se eu pudesse ter dito por telefoneemailwhatsapp. Sem óculos, em javanês, por sms, criando uma distância. I can't breathe. Não tem um jeito fácil de dizer, nem sem óculos. Não tem um jeito indolor, nem em outra língua. O barulho da mala no outro quarto. O zíper, o tênis. Não tem um jeito indolor para ninguém, nem por telegrama. Se eu pudesse não ter dito eu não teria dito. I'm sorry I'm not sorry. Mas eu não podia não dizer, de verdade.

*oi, freud, você vem sempre aqui?

terça-feira, 20 de maio de 2014

Na listinha das piores sensações do mundo: acordar e lembrar que teve um sonho feliz com um ex.

O dia inteiro ouvindo a memória da risada.