segunda-feira, 8 de abril de 2013

Meu vô era padeiro. Mais ou menos. Meu vô foi muitomuito pobre, quando ele tinha 10 anos vendia bala no trem. Ele era de uma família que veio pro Brasil sem nada porque em Portugal não dava mais. Ele foi uma daquelas pessoas que, além de terem tido oportunidade, trabalharam muito. Minha vó contava que ele chegou a ter três empregos ao mesmo tempo e continuou trabalhando mesmo depois de se aposentar. Eu lembro do meu vô saindo pra trabalhar de manhã e voltando lá pras 15h. Ele almoçava a essa hora, depois de todo mundo. Às vezes tomava vinho de mesa português, às vezes uma cachacinha. Ele gostava de melado e de chouriço. Quando ele morreu, ele já tinha conseguido o que queria, que era que ninguém mais precisasse se preocupar com dinheiro. Pra isso, ele trabalhou muito, fazendo muitas coisas e uma dessas coisas era pão.

Meu vô morreu quando eu tinha 10 anos, então eu não me lembro bem do pão que ele fazia, mas todo mundo diz que era o pão mais gostoso do mundo e que ele tinha uma maneira especial de moldar a massa, fazia com uma mão só. Meu pai e minha tia passaram muitos anos tentando fazer o pão do meu avô, pai deles. Meu pai é um ótimo cozinheiro e faz massa de pizza em casa, mas o pão dele nunca saiu bom. Nem o da minha tia. Minha mãe fazia os recheios mais gostosos, as coberturas mais doces, mas o pão do meu pai nunca ficava bom. E não é que não ficava delicioso, ficava ruim mesmo, dava errado, às vezes nem dava pra comer. Mesmo fazendo com as receitas do meu vô, mesmo fazendo com receita de livro, mesmo fazendo com receita inventada. O pão do meu pai nunca dava certo.

Aí ele e minha mãe compraram uma máquina de pão. Durante algum tempo os pães deram certo e ficaram muito gostosos. Toda semana tinha pão fresco em casa. Meu pai fez todas as receitas do livro que veio com a máquina e mais receitas de livros e mais receitas da Internet. O pão da máquina de pão ficava muito gostoso. Mas o tempo passou e meu pai deixou a máquina pra lá, no canto, e parou de fazer pão.

Na semana passada, ele ficou com vontade de comer pão recheado e resolveu usar a máquina de novo. O pão ficou muito gostoso, não sobrou nem um pedacinho. Hoje ele quis comer mais pão e pegou a máquina de novo. Da máquina saiu um cheiro de queimado e nada aconteceu além disso. Ela parou de funcionar.

Meu pai já tinha três recheios preparados, então ele resolveu fazer o pão mesmo assim. Misturou a massa, sovou, moldou os pães e levou pra assar. Quando eles ficaram prontos, que surpresa, estavam tão gostosos que estavam mais gostosos do que os da semana passada ou de qualquer semana em que meu pai usou a máquina de pão.

Quando a minha tia chegou, todo mundo estava feliz, minha mãe foi logo dizendo "você não vai acreditar, mas seu irmão fez pão e ficou bom!"
A minha tia correu pra cozinha e, antes de sentar ou pegar um pedaço, ela perguntou pro meu pai "ficou igual ao do papai?"

Eu não sei se ficou igual ao pão do pai deles, meu avô, nunca vou saber. Eu sei que o pão do meu pai ficou muito bom.

35 comentários:

  1. Renata, eu adoro seu blog..... as vezes me faz rir, as vezes me faz chorar..... por favor, não pare nunca de escrever. Eu sou mais feliz quando encontro um post novo. Obrigada. Rosana.

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  2. oi, renata - meu avô tb era padeiro, mas era o pai da minha mãe. lendo seu post bateu uma saudade...

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  3. oi,renata - meu avô tb era padeiro, mas era o pai da minha mãe. bateu uma saudade...

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  4. Sabe por que disso? Porque a temperatura das mãos da pessoa pode matar as leveduras da massa.
    Minha mãe sempre me diz isso, eu, por exemplo, tenho as mãos quentes, não sirvo pra sovar massa porque acabo matando (ohhh dó!) todas as leveduras. Dizem que até o humor da pessoa influencia. Se os pães do seu avô ficavam bons,é porque ele deve ter sido uma boa pessoa! :-)

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    1. obrigada, Rafaele. eu escrevi assim que comi o pãozinho. =)

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  6. Que post lindo! Sensível... :)

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  7. Que texto lindo, cheio de sensibilidade!

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  8. Que texto lindo, cheio de sensibilidade!

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  9. Duma delicadeza sem fim.. na pergunta da sua tia pro seu pai: "ficou igual ao do papai?" cara, deu uma emoção.

    Gosto muito de passar por aqui.

    Um beijo grande.

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  10. Que lindo. Meu avô paterno e meu pai também vieram de Portugal porque lá não estava dando mais. Meu avô também trabalhou muito, mesmo depois de se aposentar. Veja só, ele tinha um bar, abria de manhã cedíssimo, fechava tarde da noite. A idade chegou, ele não tava mais dando conta, diminuiu o turno de trabalho e acabou vendendo o bar. Mas imagina: mesmo depois de vender, continuou trabalhando no bar como funcionário da nova dona por um tempo, hahaha! Até que não deu mais, mesmo. Tá em casa agora, morrendo de saudade do bar. Meu pai segue trabalhando num horário insano que vai de 5h até 23h, com umas três horas de almoço/cochilo no meio do dia. Então, a identificação foi grande :)

    Outra identificação: minha mãe faz uma carne assada de panela ótima. A família toda aguarda essa carne dela em datas comemorativas. Eu já tentei fazer muitas vezes, sempre fica muito ruim. Uma vez fiz ao telefone com ela, seguindo rigorosamente todos os passos, e sempre fica muito ruim, de não dar pra comer mesmo.
    Acho que só vou conseguir fazer uma carne de panela boa no dia que, psicanaliticamente falando, eu me autorizar como sujeito a alcançar a minha mãe. Mas parece que tá longe ainda...

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    1. que comentário luxuoso esse seu, Livia. adorei =)

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  11. Que lindo esse texto! Eu fiquei com os olhos cheios de lágrimas porque foi inevitável lembrar do meu avô que já faleceu.
    Beijo!

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  12. Fiquei com os olhos marejados, Renata. Que texto lindo. Morri de saudades da minha mãe agora e do bolo nega-maluca que ela fazia. <3

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  13. opa, mais uma vez que venho, leio, e choro. :)

    quero pão!
    =**

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  14. bonitinhos <3

    minha bisa fazia massa de macarrão. massa de macarrão em cima de uma mesa de madeira no quintal, suja que só, cheia de mosca passando por cima e, claro, deliciosa. depois que ela morreu - tive a sorte de conviver com ela até meus 16 anos - nunca ninguém mais fez o tal "macarrão da bisa". ela fazia a massa, sovava, amassava e depois, ralava. era massa de macarrão de sopa. dava um trabalho desgraçado ralar. minha bisa tinha 1,5m e braços que enchiam meus primos de 2 m de porrada.

    um dia minha mãe comprou massa no mercado, jogou no liquidificador, e pronto. tenho certeza que a bisa tá se revirando no caixão.

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  15. Também dei umas piscadinhas molhadas aqui <3

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  16. eu tbm fiquei com os olhos marejados... texto maravilhoso! de verdade.

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  17. Passando só pra concordar com Carolina: de uma delicadeza sem fim.
    Lindo texto.

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