sábado, 27 de julho de 2013

Dez minutos para acabar o dia que eu passei inteiro pensando em você.

E eu espero o relógio como se no próximo dia eu fosse parar de pensar. Como se no dia seguinte nada que eu comer fosse me lembrar você, nada que eu beber, nada que eu falar, nada que eu ouvir. Se o frio me lembra você, a tortinha de cogumelos me lembra você, o shiraz me lembra você, meu casaco novo me lembra você, minhas camisetas de banda me lembram você. Se os poemas que eu leio me lembram você. Se todas as músicas que eu ouço me lembram você, os filmes que eu vejo me lembram você, todos os cigarros me lembram você. Se meus óculos me lembram você, minhas roupas me lembram você, meu cabelo me lembra você, meu perfume, seu perfume. Se tudo me lembra você, basta que mude o dia para nada mais me lembrar você.

Um minuto para acabar o dia que eu passei inteiro pensando em você.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Chegou o creme antirrugas que eu comprei e -

eu comprei porque eu já tenho algumas rugas. Eu não sei bem quando elas surgiram e elas não me incomodam tanto assim, mas tava numa super promoção e eu comprei. Bom, eu fiz 30 anos. Não vou ficar repetindo isso porque parece que eu não tenho assunto e talvez as rugas nem estejam aqui pelos 30 anos que eu acabei de fazer. Bom, já tem quase seis meses que eu fiz 30 anos, mas você entendeu. E vai saber se as rugas não chegaram aqui por todos os segundos e minutos que viraram horas que eu passei em frente ao microondas esperando o brigadeiro ficar pronto. Sim, eu faço brigadeiro no microondas, mas eu não estou falando de brigadeiro.

- o caso é que eu comprei o creme antirrugas com um ótimo desconto, talvez de 70%, não lembro bem e quando ele chegou em casa estava embrulhado num papel verde com letras brancas que formavam a palavra FELICIDADES mil vezes, um milhão de vezes.

Um creme antirrugas FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES FELICIDADES.

Eu não sei se foi brincadeira ou se estavam mesmo me desejando felicidade com o meu novo creme antirrugas - pelo menos não desejaram boa sorte, mas eu não posso me preocupar com isso agora porque estou tentando não franzir a testa.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Eu não gosto de coca-cola. Gosto menos da ideia de coca-cola do que da coca-cola. A coca-cola eu  até bebo, às vezes. Mas eu nuncanuncanunca na vida teria uma peça de roupa da coca-cola. Ou qualquer objeto que me lembrasse coca-cola. Eu não gosto da ideia da coca-cola. É mais ou menos isso.

Mas eu bebo coca-cola às vezes e é sempre muito bom. Não bebo todo dia, então quando eu bebo é sempre muito bom. É uma surpresa na boca, mil coisas acontecendo ao mesmo tempo. Tem o sabor, o gelado, o gás e a garrafinha que é tão bonitinha.

Eu acho que se bebesse coca-cola todo dia ia enjoar, não ia achar a menor graça. A coca-cola ia ser doce demais, eu mal sentiria o gás. Acho que pra mim seria uma coisa bem tanto faz.

Às vezes eu fico me perguntando se foi isso, se eu fui a sua coca-cola. Ou se você foi a minha.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Eu tava indo pro trabalho, sentada no ônibus de frente pra uma vidraça, lendo meu livro. Levantei os olhos e me vi com 30 anos.

Eu tinha um encontro marcado pra depois do trabalho e estava usando roupas novas, compradas no dia anterior, que não eram roupas minimamente atraentes para um encontro, eram só roupas de ir trabalhar. Fora que quando eu acordei, não tinha luz, então eu saí de casa torcendo pra que a calça tivesse vindo mais ou menos passada da loja e o casaco novo disfarçasse o amassado da minha blusa com estampa de flamingos.

Era assim que eu estava quando olhei o meu reflexo e me vi com 30 anos.

Eu sei que eu tenho 30 anos. Mas eu me olhei e me vi com 30 anos.

domingo, 7 de julho de 2013

de castigo

Minha analista perguntou o que eu fiz com a tela que ele me deu. Eu respondi que ela estava de castigo.
-O que você fez com a tela?

Queimei. Joguei no lixo. Mandei de volta. Desenhei um pênis com as bolinhas e tudo.

-Eu tirei ela de cima da cômoda onde ela ficava.
-E onde está a tela agora?

Na rua. Enterrei. Joguei num rio. Martelei. Anunciei no Mercado Livre.

-No meu armário, virada pra parede. A tela está de castigo.

Usei de banheirinho da Hannah. Dancei frevo em cima. Pisoteei. Vendi por 260 reais.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Publiquei finalmente a mixtape para os meus alunos adolescentes apaixonados.




She turns and says "are you alright?"
I said "I must be fine cause my heart's still beating"

...
Foi incrível ver, enquanto eu tava escolhendo as músicas, o tanto de música de dor de cotovelo que eu amo e quanto gosto pouco de músicas felizinhas.

É aquela velha dúvida: a gente ouve muita música triste porque sofre ou sofre porque ouve muita música triste? A música pop é responsável por todos esses corações partidos?

(a velha dúvida não é minha, é de Alta Fidelidade, o livro, o filme: "What came first, the music or the misery? People worry about kids playing with guns, or watching violent videos, that some sort of culture of violence will take them over. Nobody worries about kids listening to thousands, literally thousands of songs about heartbreak, rejection, pain, misery and loss. Did I listen to pop music because I was miserable? Or was I miserable because I listened to pop music?")

uma pequena defesa do "não é você, sou eu"

Não é você, sou eu.

Eu acho gentil. Não quero ouvir que sou chata, que uso roupas estranhas. Não quero ouvir que é porque eu engordei ou porque agora quando eu sorrio umas linhas aparecem. Não quero saber se é porque eu sou teimosa ou se é porque eu nunca uso esmalte clarinho. Não quero ouvir que é porque eu não soube me comprometer. Ou porque me comprometi demais. Não quero saber se você me acha meio burra. Ou se é porque eu sou inteligente demais pra você.

Acho gentil. Sou eu, não é você. Eu não quero mais. Eu quero outra coisa.

Eu já vou sofrer, já vou chorar. Não preciso ouvir que o problema fui eu só por ser eu. Se eu não fiz nada errado, se eu não fiz nada que tenha te magoado, se o problema é que você não gosta mais de mim, se o problema é que eu fui eu, então o problema não sou eu, é você que quer outra coisa. Obrigada por dizer isso.

A terapia me ensinou que muito pouco do que acontece dentro de nós tem a ver com o outro, a maior parte tem a ver com como a gente vê e sente as coisas e pessoas.

Tantas vezes eu disse que não é você, sou eu. E tantas vezes eu fui sincera. Eu não quis mais, eu quis outra coisa. Porque você quis me apresentar seus amigos, sim. Porque você não entendia arte da maneira como eu entendo, sim. Porque você era chato quando falava do seu trabalho chato, sim. Porque você queria conhecer minha família, sim. Nada disso está errado em você. Tudo isso sou eu, não é você.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Uma coisa que me acontece muito, sempre que eu falo do livro que eu estou lendo, é alguém me dizer que quer ler, mas não sabe que livro escolher. E aí me pede uma dica de livro.

Eu entendo muito essa ansiedade pra escolher livros, porque, olha, se eu for contar o que eu faço pra escolher um livro novo tem gente que vai achar uma grande maluquice - e que eu tenho muito tempo livre. Basta dizer que envolve infinitas abas abertas no meu chrome e que eu (quase) não compro livros em livraria de tijolo (só online), porque não consigo ver todas as opções.

Uma coisa que eu faço e que me ajuda a domar a ansiedade é só comprar um livro por vez. Escolho o que quero ler, compro, escolho outro enquanto estou lendo um, compro. Quando acabar, o outro já está me esperando (eu fico nervosa se acabar um livro e não tiver outro pra ler. quando acho que vou terminar um no ônibus voltando pra casa, já levo outro na bolsa), mas só um. Ir escolhendo de um em um me deixa mais tranquila. Existem muitos livros no mundo, isso me deixa ansiosa. Que na minha casa existam poucos não lidos me acalma.

Eu mantenho uma lista de livros que me interessam. Encontro em posts de amigos no Facebook ou no Twitter e no Goodreads. Assim fica mais fácil, quando preciso escolher um livro, começo pela minha lista, não do zero. E, se não tenho livros não lidos em casa, posso comprar um que não estava na lista sem sentir que estou atrasada na leitura, deixando de ler o que eu já comprei.

Mesmo assim, estou num momento um pouco descontrolado. Porque ganhei de presente ou me empolguei e comprei, acabei com vários livros não lidos em casa.

Garota exemplar, Gillian Flynn (a Mari me deu)
What we talk about when we talk about love, Raymond Carver (o Bruno me emprestou)
Os amores difíceis, Ítalo Calvino
Lavoura arcaica, Radun Nassar (pra ler com amigos)
Ensaios de amor, Alain de Botton (a Nath me deu)
O amor acaba: crônicas líricas e existenciais, Paulo Mendes Campos
Ithaca Road, Paulo Scott
Livre, Cheryl Strayed (a Flávia me deu)
o remorso de baltazar serapião, valter hugo mãe (o Júnior me deu)
O filho da mãe, Bernardo Carvalho (o Guilherme me deu)

E aí fico ansiosa, não sei direito por onde começar. Ando dizendo pra mim mesma o que eu sempre digo pra quem me diz que não sabe que livro escolher pra ler: é só um livro.

Escolhe um, escolhe qualquer um. Escolher o livro errado é melhor do que não escolher livro nenhum.

É só um livro.

quero só dizer que gosto de ganhar livros e a confusão causada na minha fila pra ler nunca é mais importante do que ganhar livros dos meus amigos.

Mari me disse, quando eu contei pra ela, assim que descobri tudo, que queria que as amigas só se envolvessem com caras legais e emocionalmente maduros. Uma coisa fofa, a Mari, eu poderia dizer isso todos os dias.

Eu era um fiapinho quando começou. Entendo por que começou e entendo por que acabou.

Ruim é ter que entender também por que continuou.

O que eu desejo pra mim, pra Mari, pras minhas amigas, pra todo mundo, é que a gente seja sempre emocionalmente madura. E que a gente faça escolhas emocionalmente maduras, pra não esperar que elas venham do outro lado.
...
A minha antologia do Cacaso novinha, relançada ano passado, eu não conseguia achar de jeito nenhum. Esgotada há anos, eu não frequento sebo, não compro livro usado. Relançaram, eu comprei na mesma semana. Não sabia onde estava. Embaixo da cama, caída atrás da estante, atrás da escrivaninha, em lugar nenhum. Eu não achava.

Até que eu achei e não podia buscar.

Minha escolha emocionalmente madura do mês foi segurar o choro e comprar outra.

Sina

o amor que não dá certo sempre está por
perto

Cacaso

domingo, 16 de junho de 2013

Foi ele?


Fui eu?

Não importa.

Parece que é a primeira vez que isso acontece. Parece que já aconteceu um milhão de vezes antes.

Estou exausta.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

E aí o professor da academia tá lá, repetindo que eu preciso contrair meu abdome, contrair meu abdome, contrair meu abdome, mil vezes repetindo que eu preciso contrair meu abdome.

E eu no limite de dizer que MEU QUERIDO, EU NÃO TENHO UM ABDOME, EU TENHO UMA BARRIGA E BARRIGA NÃO SE CONTRAI.

Ops, tirei um peso.

Entendeu? Eu tenho bar-ri-ga.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Subi na esteira e vi que alguém tinha esquecido um par daquelas luvinhas pra malhar. Tive a ideia brilhante de pegar e deixar na recepção, pro caso do dono voltar. Quando eu peguei, elas estavam úmidas. Úmidas de suor. Úmidas do suor de um desconhecido.

Foi isso que eu ganhei por tentar ser legal: contato com o suor de um desconhecido.

Eu fui muito forte e não chorei. Faltou pouco, mas eu não chorei. Só que. Todos os meus tiques nervosos foram ativados na mesma hora e eu fiz o treino correndo numa versão bonecão do posto de mim mesma.

Agora estou aqui, testando se consigo escrever com a mão esquerda, porque a direita está condenada, vou ter que arrancar.

Pra me recuperar, eu comprei mais uma sapatilha de glitter e mesmo assim ainda não tô completamente bem e ainda não perdoei o desconhecido por suar.

domingo, 19 de maio de 2013

No sábado, no comecinho da aula, naquela hora de "como foi sua semana?" um dos meu alunos disse que tinha sido ótima, ele tinha tido um encontro e estava se apaixonando. Dezoito anos, um fofo. "Eu nunca me senti assim com ninguém."

Tinha poucos alunos na sala ainda, um deles sugeriu uma trilha sonora pro momento: Accidentally in Love, dos Counting Crows.
Um outro aluno sugeriu o Concerto para piano nº1 de Tchaikovsky. Eu não estou brincando.
Outro sugeriu uma música do Aladdin. O desenho da Disney.

Na volta do intervalo, meu aluno apaixonado voltou cantarolando Djavan.

Eu tive que dar um basta e dizer que tá todo mundo proibido de se apaixonar até a semana que vem, quando eu vou preparar uma mixtape pra eles se apaixonarem com música apropriada pra juventude.

O amor está proibido, mas só até semana que vem.

e até quinta eu aceito sugestões de músicas pra incluir na mixtape! =)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Você acorda, abre os olhos e vê que tá se arrastando. Você acordou no meio de uma poça de tristeza. É claro que você acordou numa poça de tristeza, descuidando dos exercícios, meditando nunca e fingindo que não precisa respirar pelo diafragma. Você acordou no meio de uma poça de tristeza e a culpa é toda sua. Ainda que não fosse ou que não seja, você acordou no meio de uma poça de tristeza e vai ter que lidar com isso. Não tem ninguém que possa consertar isso pra você, nem adianta pedir.

Você se arrasta até o banheiro, toma um banho e leva quatro minutos pra vestir cada peça de roupa, parando no meio do processo pra descansar. Você decide que hoje não tem como faltar à academia e vai lá dar uma corridinha de 20 minutos pra ver se melhora. Você põe o seu short, o seu tênis, a sua camiseta de caveira e vai correr.

Você sobe na esteira, você anda cinco minutos, você corre 90 segundos. Você anda 90 segundos. Você corre 3 minutos. Você anda 3 minutos e você chora. Em cima da esteira.

Você para um pouquinho, respira um pouquinho e começa tudo de novo.

sábado, 11 de maio de 2013

Eu sinto falta de manuais de instruções.

Não sei quando eles se tornaram desnecessários a ponto de não acompanharem mais os produtos que eu compro, mas aconteceu. Eu sinto falta daqueles manuais grossos, cheios de instruções óbvias, que me ensinavam até como ligar meu aparelho novo.

Não se fazia nada sem um manual. Quando meus pais compraram um micro-ondas Sharp fora do Brasil em 1991, minha mãe mandou traduzir o manual. Era muito importante aprender como esquentar a comida no forno novo. O manual traduzido veio encadernado em arame preto e capa fumê. Nada mais é fumê e ninguém mais lê o manual.

Faz só alguns anos eu traduzi o manual de um aquário. E na mesma época me pediram o orçamento de uma tradução do manual de uma máquina de costura. Eu tive que devolver sem traduzir, o manual estava em sueco.

Eu não sabia que a bateria só duraria 30 dias se a wifi estivesse desligada. Eu não sabia que ela duraria pouquíssimos dias se a wifi estivesse ligada. Eu pensei que houvesse alguma coisa errada com o aparelho. Pesquisei no google. bateria+duracao. Eu tinha que desligar a wifi.

Era óbvio.

E foi aí que eu percebi que o aparelho não tinha vindo com um manual. Se tivesse um manual, eu teria lido. Eu saberia que era preciso desligar a wifi. Eu estaria preparada. E foi aí também que eu percebi que os últimos aparelhos eletrônicos que eu comprei não vieram com manual. Vieram com um livreto de poucas páginas, algumas fotos, talvez uma garantia em várias línguas diferentes. Eu senti falta de um manual de instruções, como tenho sentido há algum tempo. Sinto falta das instruções, das óbvias principalmente. Tudo é tão moderno, tão avançado que eu preciso que alguém me explique as coisas mais simples. Renata, liga o aparelho aqui, ó.

Eu preciso desligar a wifi se eu quiser que a bateria dure até 30 dias.

Eu preciso que alguém me diga isso, que alguém me explique pra que serve cada botão do meu novo aparelho, que alguém me diga que buraquinho dele serve pra conectar na tomada, que buraquinho dele serve pra conectar no computador e que buraquinho dele serve pra receber um cartão de memória que vai fazer com que caiba tanta coisa ali quanto eu jamais imaginei que fosse possível.

Eu preciso de uma seção com respostas para as minhas perguntas. Eu tenho muitas perguntas sobre cada novo aparelho que eu compro. A primeira delas é "por que eu comprei mais uma buginganga?" e a segunda sempre é "como fui capaz de viver sem isso até hoje?"

Eu preciso de uma seção que me diga o que fazer pra resolver cada problema que meu aparelho possa ter. Eu quero saber o que está acontecendo se uma luz verde piscar três vezes e se devo me preocupar caso uma luz azul pisque apenas uma vez.

Eu não sei o que aconteceu com os manuais de instruções. Não sei por que eles desapareceram, por que foram tirados de nós. Talvez todo mundo tenha ficado mais esperto, tão esperto que não precisa mais de instruções. Todo mundo, menos eu.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Acho que nunca alguém teve um objetivo são simples e ambições tão humildes nessa academia.

-Qual é o seu objetivo, Renata?
-Só quero que, quando eu sentar, minha coxa não fique esparramada na cadeira.

É só isso que eu quero, mas parece que mesmo isso é pedir muito.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Análise avaliativa dos últimos sapatos que eu comprei

-sapatilha dourada: Super macia e linda. Ter um sapato confortável e lindo ao mesmo tempo é daquelas coisas que faz com que eu sinta que venci na vida. Ela combina com tudo. Sim, ela é dourada e combina com tudo. Sim, eu disse que um sapato dourado combina com tudo. O que não combina com dourado? Essa é a pergunta que você devia estar se fazendo.

-sapatilha peep toe de glitter azul: Não, ela não combina com nada, mas ela é de glitter azul. De glitter. Azul. É um dos sapatos que mais machucaram meu pé, o que pode ser ou pode não ser pelo fato de ser um número menor do que meu pé. A loja pode ter me enviado o número errado ou eu posso ter ou posso não ter pedido um número menor sem querer. Pode ter ou pode não ter sido um ato falho do meu inconsciente que me odeia, apenas me odeia e quer me ver sofrendo, mas não vou falar disso porque estou muito distraída olhando pro meu sapato. De glitter. Azul. Continuarei usando, é claro, porque eu não espero mesmo que a vida seja fácil e band-aid tá aí pra isso.

-botinha: Sim, ela é uma botinha de motoqueira. Sim, ela é uma botinha de caubói. Sim, ela é as duas coisas e é por isso que eu a amo e nós vamos nos casar e ter pequenas botinhas de motoqueira/caubói porque tanta beleza deve ser perpetuada. Pena que nossas botinhas-filhote serão míopes como eu, provavelmente. Ai, o que eu estou dizendo? Botinhas de óculos, você consegue pensar numa coisa mais fofa? Sucesso na próxima estação.

-scarpin preto: Porque eu sou adulta, sou uma jovem profissional, tenho 30 anos, sou madura. E porque, sim, eu tenho o direito de comprar sapatos que eu não vou usar (eu não uso salto), é pra isso que eu trabalho e eu mereço ser feliz.

-sapatilha preta de spikes: Eu não quero ouvir ninguém dizendo "mas, renata, você não tinha dito que não aguentava mais tachas e spikes?" porque eu simplesmente não vou ouvir e ainda vou te dar um chute com a minha sapatilha de spikes e coitadinho de você.

Conclusão da análise avaliativa: as compras foram todas necessárias, os sapatos são lindos e parabéns pra mim.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O Robert Pattinson, depois do término da relação com a Kristen Stewart, antes de retomar o namoro, foi ao programa do Jon Stewart e, ao ouvir do apresentador que para os jovens o fim de um relacionamento pode parecer o fim do mundo, confirmou "E é."


É mesmo. É o fim de um mundo. E olha que eu nem estou mais na categoria jovem adulta, sou só adulta mesmo.
...
Eu tenho no meu celular muitas fotos de raposas e ursos polares que eu salvei da Internet pra mandar pra você, numa mensagem boba no meio do dia. Imagina se eu te mandasse agora todas as fotos? Uma enxurrada de fotos de ursos polares e raposinhas. Toma todas, são todas suas, acumulei pra você. Aquela coisa de mandar uma foto por vez. A certeza de que eu ainda ia te mandar algumas raposas.

Talvez você nunca tenha entendido o que eu dizia quando te mandava uma mensagem dessas, agora eu fico pensando. Eu queria dizer que estava pensando em você entre o pilates e a terapia. Que eu saí do trabalho pensando em você e que eu estava pensando em você enquanto tomava um chopp com meus amigos.

Acho tanta coisa pensar em alguém.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Eu não tenho turma de crianças este semestre - todo mundo chorando comigo agora - então aproveito pra ouvir as gracinhas quando tenho que substituir algum professor.

Os minialunos que só foram meus por uma hora estavam falando sobre a fada do dente. Todos eles, numa turma de sete, já tinham ganhado alguma recompensa por um dente que caiu.

-Eu ganhei 10 reais.
-Eu ganhei um dólar.
-Eu ganhei 50 reais.

Eu falei "Nossa, achei que era pra ganhar só uma moedinha. Esses dentes estão muito caros!"

E um deles me explicou: "É que são dentes de boa qualidade."

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Meu vô era padeiro. Mais ou menos. Meu vô foi muitomuito pobre, quando ele tinha 10 anos vendia bala no trem. Ele era de uma família que veio pro Brasil sem nada porque em Portugal não dava mais. Ele foi uma daquelas pessoas que, além de terem tido oportunidade, trabalharam muito. Minha vó contava que ele chegou a ter três empregos ao mesmo tempo e continuou trabalhando mesmo depois de se aposentar. Eu lembro do meu vô saindo pra trabalhar de manhã e voltando lá pras 15h. Ele almoçava a essa hora, depois de todo mundo. Às vezes tomava vinho de mesa português, às vezes uma cachacinha. Ele gostava de melado e de chouriço. Quando ele morreu, ele já tinha conseguido o que queria, que era que ninguém mais precisasse se preocupar com dinheiro. Pra isso, ele trabalhou muito, fazendo muitas coisas e uma dessas coisas era pão.

Meu vô morreu quando eu tinha 10 anos, então eu não me lembro bem do pão que ele fazia, mas todo mundo diz que era o pão mais gostoso do mundo e que ele tinha uma maneira especial de moldar a massa, fazia com uma mão só. Meu pai e minha tia passaram muitos anos tentando fazer o pão do meu avô, pai deles. Meu pai é um ótimo cozinheiro e faz massa de pizza em casa, mas o pão dele nunca saiu bom. Nem o da minha tia. Minha mãe fazia os recheios mais gostosos, as coberturas mais doces, mas o pão do meu pai nunca ficava bom. E não é que não ficava delicioso, ficava ruim mesmo, dava errado, às vezes nem dava pra comer. Mesmo fazendo com as receitas do meu vô, mesmo fazendo com receita de livro, mesmo fazendo com receita inventada. O pão do meu pai nunca dava certo.

Aí ele e minha mãe compraram uma máquina de pão. Durante algum tempo os pães deram certo e ficaram muito gostosos. Toda semana tinha pão fresco em casa. Meu pai fez todas as receitas do livro que veio com a máquina e mais receitas de livros e mais receitas da Internet. O pão da máquina de pão ficava muito gostoso. Mas o tempo passou e meu pai deixou a máquina pra lá, no canto, e parou de fazer pão.

Na semana passada, ele ficou com vontade de comer pão recheado e resolveu usar a máquina de novo. O pão ficou muito gostoso, não sobrou nem um pedacinho. Hoje ele quis comer mais pão e pegou a máquina de novo. Da máquina saiu um cheiro de queimado e nada aconteceu além disso. Ela parou de funcionar.

Meu pai já tinha três recheios preparados, então ele resolveu fazer o pão mesmo assim. Misturou a massa, sovou, moldou os pães e levou pra assar. Quando eles ficaram prontos, que surpresa, estavam tão gostosos que estavam mais gostosos do que os da semana passada ou de qualquer semana em que meu pai usou a máquina de pão.

Quando a minha tia chegou, todo mundo estava feliz, minha mãe foi logo dizendo "você não vai acreditar, mas seu irmão fez pão e ficou bom!"
A minha tia correu pra cozinha e, antes de sentar ou pegar um pedaço, ela perguntou pro meu pai "ficou igual ao do papai?"

Eu não sei se ficou igual ao pão do pai deles, meu avô, nunca vou saber. Eu sei que o pão do meu pai ficou muito bom.