sábado, 14 de junho de 2014

Outro dia eu estava no ponto de ônibus, veio um homem bêbado falar comigo. Falou coisas sem sentido, enrolando a língua e batendo na própria cabeça. Eu permaneci de pé, olhei para ele com uma cara muito séria e disse "não." Ele continuou falando coisas sem sentido e batendo na própria cabeça por um tempo, enquanto eu o ignorava olhando para o nada com uma cara muito séria, até ele se dirigir a outras pessoas que também estavam no ponto de ônibus.
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Há um tempo eu estava saindo com dois caras mais ou menos ao mesmo tempo. A gente estava bem no comecinho de qualquer coisa, eu com um e eu com o outro. Chegou um momento em que eu achei que tinha que escolher um dos dois e eu não escolhi o cara que disse que ia procurar minha marca preferida de pães-de-mel na viagem que ele faria, e sim escolhi o cara que me chamava de pedante e me fazia dar três pulinhos para São Longuinho quando encontrava algo que ele estava procurando, como o iPod perdido na casa dele que não tem televisão, como a minha.
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Quando o bêbado que falava coisas sem sentido, enrolando a língua e batendo na própria cabeça se aproximou do homem que esperava o ônibus comigo, o homem saiu andando, atravessou a rua, apressou o passo; o bêbado atrás dele, falando coisas sem sentido e batendo na própria cabeça.
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O que aconteceu foi que o cara que perguntava no que eu pensava quando eu sorria com o canto da boca sumiu. Ele sumiu depois que eu disse que tinha comprado um presente para ele, o que me fez achar que ele tinha ficado assustado. O presente era só um pote de massinha e mais tarde eu descobri que ele também estava saindo com duas mulheres ao mesmo tempo e escolheu a outra, não a mim.
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A perseguição do bêbado durou um certo tempo. Para mim, pareceu um tempo curto, numa cena ridícula, mas para o homem sendo perseguido deve ter parecido muito tempo. Finalmente o ônibus chegou, e o homem perseguido atravessou a rua de volta para o ponto.
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A outra mulher, a que foi escolhida, partiu o coração do cara que leu um texto que eu havia enviado para ele, um texto do qual eu mesma não havia lido nada além do título e por isso ele me chamou de cretina, e depois comentou comigo o texto todo, bom a outra mulher partiu o coração dele, então ele começou a tentar se reaproximar de mim.
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Enquanto eu observava a perseguição do bêbado com o homem apavorado, eu pensei em quantas vezes na minha vida eu bati o pé no chão e disse "não, você não vai fazer isso comigo" apenas porque eu achava que essa era a postura que eu devia ter diante da vida e das coisas que acontecem nela. Quantas vezes eu poderia simplesmente ter feito o que eu queria, que neste caso era atravessar a rua com medo, mas me forcei a ser forte e dura, sendo forte e dura comigo mesma.

O homem perseguido atravessou a rua rindo de si mesmo, daquela situação maluca acontecendo às nove horas de uma sexta-feira, balançando a cabeça. Ele entrou no mesmo ônibus que eu.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Acordei e fui molhar as plantas, que agora eu tenho plantas. Enquanto fazia isso, pensei que eu não tinha a mínima ideia do que eu estava fazendo. É assim que se molham plantas? Eu realmente não tenho ideia.
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Precisava curar a ressaca, então fui almoçar no restaurante que serve bife à milanesa com arrozinho e feijãozinho. Fiquei lendo meu livro sobre um triângulo amoroso entre pessoas de 22 anos. Por que não? E na outra mesa tinha três amigas de 22 anos e elas pediram três pratos iguais, achando graça de tudo e eu comecei a chorar. Eu tenho 31 anos e passei a noite deitadinha no chão do banheiro porque estava geladinho e porque, opa, meu fígado. Depois comi morangos e fui dormir já amanhecendo.
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Me despedi de uma amiga, saí do metrô e ela ficou. Até domingo. Parecia que era outra pessoa que estava dizendo aquilo, outra pessoa que estava no metrô, outra pessoa carregando a minha bolsa, outra pessoa combinando um almocinho no domingo.
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Às vezes eu fico pensando como cheguei aqui, me esqueço mesmo, não sei como vim parar aqui.

Mas daí é segunda à noite e eu estou ouvindo Violent Femmes e dançando na sala e, posso não saber direito como cheguei, mas quero ficar.

Sobre o meu joelho e dor: fico pensando que, muito mais do que quando saiu do lugar, meu joelho doeu mesmo quando voltou pro lugar. A dor de colocar no lugar e ele entender que tinha que ficar ali, se acostumar de novo ao lugar que sempre foi dele. Uma dor muito maior.

Então tem o susto e tem a dor. E a dor de tudo se ajeitando é tão grande.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Todos me avisaram que pra encher uma casa eu precisaria comprar muitas coisas. Eu até acreditei, não é que eu tenha duvidado, não. Eu acreditei, mas, sério, eu não conseguia imaginar que precisaria de tantas coisas. Não trouxe nada além da minha estante e do meu espelho da casa dos meus pais e achei realmente que poderia comprar os móveis essenciais de uma vez e ir comprando as coisas pequenas aos poucos.

Eu pude, eu posso. Mas pra cada lugar que eu olhe da casa vejo um canto vazio onde cabe uma mesinha, uma planta, um quadro. Coisas que eu disse que compraria depois: mesa de centro, tapete, aparador. Não tem depois, eu quero agora.

Daí eu vou e compro uma cabeça de elefante pra pendurar na parede da sala (porque sim, me deixa), eu penduro e ela está gritando, pedindo socorro, ela precisa de um aparador do lado dela, ela não quer viver só do lado do sofá.

Daí minha prima confirma que vem ao Brasil com o marido e vão ficar na minha casa (ganhei a concorrência de hospedagem!), eu corro e compro o sofá-cama (é muito confortável, eu juro, eu testei), coloco no escritório e acho que vai ficar tudo bem. Mas não vai. Porque o sofá-cama é marrom, porque era a cor mais escura disponível (coisas que me perseguem: farelos e líquidos que espirram e mancham) e, sendo marrom, ele pede almofadas azuis-celestes para alegrar sua existência. E uma mesa lateral. Com um vaso de planta. Ele pede também, quem sabe, um tapete, não custa nada.

Mas custa, né? O processo todo é uma delícia, mas como custa.

A sensação que eu tenho é que, por mais que eu compre coisas e encha a casa, ainda assim vou passar os próximos cinco anos da minha vida comprando corujinha de louça e mesa lateral.

 
 
 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Passei por uma casa que, com a porta aberta, tinha o cheiro da sua casa. O cheiro exato da sua casa, das suas casas.

Minhas pernas chegaram a ficar bambas de saudade. Isso e meu joelho destruído.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Eu tirei meus olhos* óculos na hora de conversar e explicar o que eu estava sentindo. Eu sei que foi uma trapaça. Ele continuou de óculos. Eu sei, porque eu uso óculos minha vida quase toda, que foi uma trapaça, foi pra deixar as coisas mais fáceis para mim. Se eu pudesse ter dito em inglês, em francês, em japonês eu teria dito. Se eu pudesse ter dito numa língua que não era minha eu teria dito, qualquer língua. I've got to go. Se eu pudesse ter dito por telefoneemailwhatsapp. Sem óculos, em javanês, por sms, criando uma distância. I can't breathe. Não tem um jeito fácil de dizer, nem sem óculos. Não tem um jeito indolor, nem em outra língua. O barulho da mala no outro quarto. O zíper, o tênis. Não tem um jeito indolor para ninguém, nem por telegrama. Se eu pudesse não ter dito eu não teria dito. I'm sorry I'm not sorry. Mas eu não podia não dizer, de verdade.

*oi, freud, você vem sempre aqui?

terça-feira, 20 de maio de 2014

Na listinha das piores sensações do mundo: acordar e lembrar que teve um sonho feliz com um ex.

O dia inteiro ouvindo a memória da risada.

segunda-feira, 19 de maio de 2014


Já tá naquela fase de deixar tudo com a minha cara. Daí essa parte é a mais legal. Comprar vasos, almofadas, pôsteres, todas essas coisas legais. Mas dá também uma ansiedade, uma vontade de comprar tudo de uma vez.

Pra sala ainda faltam o tapete (já comprei), almofadas (já comprei algumas), uma estante, uma luminária de pé, uma luminária pendente, plantas, uma mesa de centro, um aparador, quadros. Pro escritório/quarto de hóspedes faltam o sofá-cama (já comprei), uma mesa lateral, luminária. Pro meu quarto faltam criados-mudos. Para os quartos e a sala faltam cortinas (já comprei a do meu quarto).


Meu pai que fez a estante, já tem muitos anos, ficava no meu quarto na casa deles, eu quis trazer pra cá. Ainda não arrumei, a única coisa que eu fiz foi colocar o Valter Hugo Mãe do ladinho do Saramago.


Tenho achado super difícil: comprar roupa de cama e toalha de mesa que não tenham cara de casa de mãe. Nada contra as mães, até tenho uma, mas, né? Não gosto: flores delicadas e pequenas. Gosto: estampas geométricas, estampas grandes e muito coloridas, essas coisas. Super difícil.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Quando você é homem e diz que não quer namorar, que gosta da sua liberdade, quer ter tempo pra fazer suas coisas sozinho, ninguém acha que você está mentindo. Eu não sou homem, nunca fui homem, eu tô falando do que eu vejo. Ninguém, quando um homem diz que não gosta de namorar, que não quer namorar, diz que ele tá mentindo.

Quando você é mulher e diz que não quer namorar, você é, além de mentirosa, uma encalhada. Eu acho encalhada uma palavra sensacional, embora seja bem triste porque nos faz pensar em baleias que vão morrer. Ou vão quase chegar à morte para depois serem salvas. Exatamente como você, que além de encalhada é mentirosa e está só esperando alguém chegar para te salvar. Mas o fato é que ninguém te quer e só por isso você está solteira e todo mundo sabe disso, não adianta disfarçar.

Quando você é mulher e diz que não quer namorar, é claro que você está mentindo, você só pode estar mentindo porque todas as mulheres são felizes amando e querem amar.

Mesmo quando você não quer.

Quando alguém diz que não sabe viver sozinho, a gente pensa "que pena, devia aprender" e depois a gente volta pros nossos namorados e diz que todo mundo devia aprender a viver sozinho, a amar a si mesmo, se conhecer etc.

Quando alguém diz que não sabe viver num relacionamento amoroso, essa pessoa é maluca e/ou terrível e ela não tem um coração. Ou ela está esperando alguém que vai fazer isso mudar. Porque ela nunca viveu um relacionamento feliz. Mesmo que ela tenha vivido alguns. Essa pessoa, ela nunca está dizendo a verdade.

Mesmo quando você está.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Tem uma parte de mim que está feliz por você, é a parte que sabe que é o que você sempre quis, uma família. É a parte que sabe que é o que eu não quero, esse tipo de família. Eu já não queria aos 25 e nem sabia. O tanto que me doeu descobrir que não era só a distância, não era só não poder trabalhar, não era só o visto. Era eu. Tem uma parte de mim que gosta de saber que você conseguiu amar de novo. Tanto. A esse ponto. Que bom saber que você caminhou tanto. Eu ainda engatinho. Tem uma parte de mim que vê você feliz e fica feliz, que bom pra você.

Mas tem a outra parte, a que passou dois dias chorando de boca aberta quando soube. No ônibus, andando na rua, de soluçar, mandando mensagem pra contar para as minhas amigas, segurando meu coração bem apertado pra ele não se partir mais uma vez, porque eu já sabia que era nunca mais, mas agora é nunca mais mesmo. Tentando encontrar e se entender com a parte que está feliz por você.
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Quando morreu o Gabriel García Márquez e você me mandou um e-mail dizendo que sentia muito, porque sabia o quanto ele era importante para mim. L'amour aux temps du choléra. Quando eu li aquele e-mail as duas partes se encontraram e você ensinou a elas mais uma coisa, de tantas que já tinha ensinado para tantas partes de mim. Que não é preciso esquecer o passado para superar e seguir em frente. Obrigada, mais uma vez, and may your baby boy be healthy and happy. I hope he has your curls.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Para algumas pessoas é natural essa coisa de estar com alguém, cuidar, ouvir, ligar pra perguntar como foi o dia, dividir o tempo.

Para mim não é. É um trabalho diário. Minuto a minuto.
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Desde que eu saí de casa todas, absolutamente todas as mensagens que minha mãe me manda no whatsapp terminam com um emoticon de mamadeira.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A pior parte da minha vida de dona de casa é lavar lixeira. Que nojo.

A melhor parte da minha vida de dona de casa é passar rodo mágico com Veja no chão.
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Desvendei o mistério da coleta de lixo! O caminhão passa todo dia, porque aqui é centro da cidade.

eu já comprei o sofá, gente! comprei junto com todas as coisas da casa, só que o sofá tem um prazo de entrega muito longo. comprei no começo de março mas o prazo pra chegar é até dia 25 de maio. não quero chamar meus amigos antes disso porque não é confortável e ninguém tem mais coluna que aguente ficar sentado no chão ;)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sobre o meu apartamento,

o que é difícil:
-ocupar os espaços. Na casa dos meus pais, por muitos anos, mais de 20, não tinha tevê na sala. tinha uma tevê em cada quarto e ficava cada um na sua. não existia isso de ficar sentado no sofá com a família vendo novela. Na minha casa, o sofá ainda não chegou e não tem tevê. São dois quartos, um é o de dormir e o outro é um escritório/quarto de hóspedes. Na casa dos meus pais, eu tinha um cantinho de trabalho com meu computador, mas era tudo no meu quarto, num lugar só. Era o lugar onde eu mais ficava. Agora, com a casa toda pra mim, ainda é difícil ocupar todos os espaços. Eu fico lutando pra não ficar só no quarto, mas por enquanto só uso a sala para refeições, enquanto o sofá não chega e me obrigo a trabalhar no escritório.

-não fazer estoque. Quando meu vô morreu, eu lembro de caminhões de comida chegando na minha casa, outros caminhões de produtos de limpeza. Entraram na casa (presta atenção que não era uma despensa apenas) que ele mantinha como depósito de compras e viram o tanto de coisa que ele tinha lá e saíram distribuindo. Meu vô gostava de fazer estoque. Se você precisar de uma torneira, ainda tem lá, no estoque dele, de obras. Eu gosto de fazer estoque. Eu não sei comprar uma caixa de sabão em pó. Eu preciso de três. Eu preciso saber que nunca na minha vida eu vou abrir o armário e achar uma lata só de leite condensado. Eu preciso de estoque. E, embora meu apartamento não seja pequeno, eu não tenho onde guardar tanta coisa assim. Não fazer estoque é uma luta diária.

-saber quando o lixeiro passa. Eu moro num predinho antigo que não tem porteiro. Cada um coloca seu próprio lixo pra fora. Eu achei que o lixeiro aqui passasse nos mesmos dias que no bairro dos meus pais, mas parece que eu me enganei. É claro que eu posso perguntar para um vizinho ou para o síndico, mas eu nun-ca vejo ninguém no prédio e fico sem graça de tocar o interfone só pra perguntar isso, então fico prestando atenção nas outras casas da rua, pra ver quando elas colocam o lixo no portão. Até agora, não achei um padrão.

o que é fácil:
-cozinhar todo dia. Muita gente me disse que eu ia ficar com preguiça, ia comer congelados e delivery. Eu não me acostumo. Na casa dos meus pais eu já cozinhava quase todos os dias. Quando tô com preguiça, eu faço uma coisa bem rápida, uma massa com um molho fácil ou um sanduíche. Já pedi delivery aqui, mas porque estava com vontade de comer aquele prato daquele restaurante e na primeira vez foi porque não tinha gás e aí deu preguiça mesmo de pensar no que fazer só com o forninho elétrico. Também é bom notar que eu estou em Nova Iguaçu, o conceito de rapidez não chegou aos serviços de entrega daqui. Se eu estiver com fome e preguiça, é muito mais simples fazer uma massa em casa mesmo.

-ficar sozinha. Eu amo. Mas amo. Mas amo muito. Adoro ter companhia. Ainda não recebi amigos aqui (não tem sofá!), mas na casa dos meus pais eu recebia, fazia jantares, festas, sempre gostei. Quero sempre receber amigos na minha casa também, não me entenda errado. Mas eu amo ficar sozinha. Amo não ouvir nenhum barulho que não seja o meu (e o do trem, que eu moro em frente à linha férrea). Só escuto barulho dos vizinhos quando vou à cozinha e mesmo assim é de longe. Eu amo ficar sozinha e estou me sentindo muito feliz tendo tanto espaço e silêncio só pra mim.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

e se fosse um par de crocs?

Eu tava aqui em casa ouvi um PLEC e logo depois vem o Sk8erBoy: "Meu boné caiu lá embaixo."

-Oi?
-Meu boné. Ele caiu lá embaixo, caiu pela janela.
-Como??
-Caiu. Você acredita?
-Não.
-Como a gente pega?
-Não sei. A gente não pega. Não tenho a chave do portão que dá pra lá.
-Pede pro síndico?
-Sk8erBoy, vamos fazer o seguinte? Eu te dou um boné, outro boné. Tá?
-Não!! Aquele boné é único! Você não tá entendendo. Ele foi feito pra mim. Um antigo patrocinador fez pra mim. Não existe outro no mundo. Foi feito pra mim.
...
No dia seguinte olhei pela janela e o boné não estava mais lá. Lá fui eu tocar o interfone do síndico e perguntar se "o senhor viu um boné preto lá na parte de trás do prédio? meu namorado de 32 anos deixou cair eu não sei como." Depois de ouvir "eu já peguei e até tava pensando que era de vocês mesmo." eu fui embora pra minha consulta com o ortopedista.
...
À noite, eu estava conversando com amigos e nós ficamos discutindo se era necessário usar a palavra "namorado" nesse contexto. Acho que ficou meio decidido que pra nós usar namorado/marido/noivo/pessoa com quem eu saio às vezes era desnecessário e um pouco cafona. Essa explicação: desnecessária. A gente prefere só usar o nome da pessoa. Eu me defendo (de mim mesma, não dos meus amigos), dizendo que ali, falando com o interfone, não dava pra simplesmente dizer "o Sk8erBoy deixou o boné cair pela janela", porque o síndico não sabe o nome dele. Se fosse uma conversa cara a cara, seria mais fácil, ele logo entenderia quem é o Sk8erBoy da história ou não se importaria.
-Mas você poderia ter dito que o boné era seu.

Um amigo contraargumentou. Eu podia ter dito que o boné era meu. E eu podia mesmo, né? Eu podia ter simplesmente dito que o boné que caiu pela janela era meu, que eu deixei o boné cair pela janela, será que o senhor pode pegar pra mim, por favor?

É verdade, eu podia ter dito que era meu. Mas aí são as escolhas da vida, né? Naquele momento, eu precisava escolher entre dizer que eu tenho um namorado e dizer que eu uso boné (e deixo ele cair da janela).

Eu preferi o namorado.


lembrei desta entrevista da glória maria. glória, os perfis de casal no facebook não mostram, mas somos muitos, dá aqui a mãozinha. S2

terça-feira, 8 de abril de 2014

Em duas semanas várias coisas deram errado. Embora eu estivesse muito feliz com a casa e com tantas coisas, eu levei uns tropeções até o meu joelho sair do lugar e eu chegar em casa numa segunda-feira depois de trabalhar o dia inteiro, pra trabalhar mais um pouco e o computador não ligar.

E meu joelho dói e não dobra e depois não estica e dói e pesa 30kg e eu não aguento mais andar me arrastando e eu chego a estar torcendo pro médico fazer logo uma punção e eu só quero que passe e o Windows não inicia.

O departamento de TI&Sk8, também conhecido como aquele cara do Tinder que foi me encontrar com uma camiseta furada com estampa do dedo do meio e logo no carnaval perguntou "e aí, a gente vai passar junto ou você quer debandar?", bom, esse. O departamento de TI&Sk8 veio e em 15 minutos resolveu o problema, prometendo que no fim de semana ia consertar o computador de um jeito que ele ainda duraria muito tempo.

E eu chorando. Porque tá tudo dando errado. Tudo que dava certo agora dá errado e tudo que dava errado dá certo.
-Do que é que você tá falando, Renata?
-Eu nunca tive nenhum problema com meu computador, meu corpo sempre funcionou. E minha vida amorosa não dava muito certo, né? E aí você apareceu.
-E aí todo o resto começou a dar errado?
-É, mais ou menos isso.
-O seu joelho saiu do lugar. Pelo menos agora eu tô aqui pra colocar gelo nele pra você.

O.o --->; minha cara na maior parte do tempo. esperando a pegadinha.

e ainda tomei um antiinflamatório diferente e acordei conseguindo dobrar o joelho!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

-Como foi na terapia?
-...Como foi...?
-É, foi boa?
-Ah, foi.
...
-Você falou de mim? Na terapia, você falou de mim?
-Falei.

=)

E quando eu cheguei, já tinha gás (e banho quente).

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Eu estou me esquecendo dele. Não da existência dele nem do rosto, mas estou me esquecendo dele. Me lembro da voz e de coisas que ele disse, e da risada. Mas não consigo mais imaginar coisas que ele diria ou do que ele daria gargalhada. Isso é esquecer alguém.

Eu não vou nunca saber explicar o que a gente teve e do que eu tive que fugir, sair correndo, porque nunca ia conseguir terminar de outro jeito. Se eu nunca soube explicar o que era, já nem consigo nos imaginar juntos. Eu não lembro direito o que a gente fazia juntos. Assistia tv? O que a gente conversava durante o jantar? Eu não me lembro, por mais que me esforce. Mas eu não me esforço muito. Isso é esquecer alguém.

A tela está na sala da minha casa nova. A tela que ele me deu, que eu escolhi. Na sala da minha casa nova, eu levei pra lá depois de um longo castigo em que ela ficou virada para a parede no meu quarto na casa dos meus pais. Levei para a minha casa nova e coloquei na sala, em cima do móvel amarelo, ao lado do pôster de zebra. Isso é esquecer alguém.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Das coisas mais difíceis num relacionamento, não vou entrar no mérito daqueles bloqueios profundos, deixa pra minha analista, das coisas mais difíceis:

-Dividir meu tempo. Eu estou tão acostumada a ter meu tempo só pra mim, ele está sempre tão preenchido, eu sou tão boa em não me deixar ficar à toa. E de repente preciso dividir o meu tempo, eu quero dividir o meu tempo, mas dá um trabalhinho. Agora gostaria de ler em silêncio, mas vou assistir a esse filme. Porque eu quero, mas mesmo assim, não é fácil.

-Usar batom de cor forte. Tantos batons vermelhos, vinho, rosa, coral que eu tenho. De tantos tons diferentes, eu gosto tanto deles. Mas não dá, né? E eu quero usar batom.

É aquilo, estou tentando. Todo mundo está, sempre.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Eu nunca fui boa em esportes. Na escola, era sempre a última a ser escolhida, muitas vezes sobrava. Já adulta, quando fui diagnosticada com depressão, minha analista disse que eu ainda sofreria com isso em outras fases da vida. Pelo meu histórico familiar, aquela não era uma depressão pontual. Eu podia passar a vida tomando remédio, mas ela achava que não, que com terapia, alimentação correta e exercício físico eu poderia controlar.

O exercício físico me ajudou em muitos corações partidos, em muitas depressões sem motivo. Eu aprendi a gostar do exercício e a me orgulhar de ter um corpo saudável, que funcionava. Mesmo não sendo atleta, eu subia ladeiras, pulava, corria, meu corpo me obedecia.

A festa de 60 anos do meu pai tava no final, eu me despedi da Hannah e voltei pra me despedir de novo. Não sei direito como aconteceu, mas eu me desequilibrei e virei o pé num degrau de 10 cm. Quando eu caí, senti e vi o meu joelho saindo do lugar.

Eu não pensei na dor. Eu não pensei na dor até chegar no hospital. Eu caí porque não sentia mais minha perna, as pessoas vieram correndo e eu disse "meu joelho saiu do lugar, eu preciso ir pro hospital." Enquanto eu caía, eu não pensava na dor, eu pensava "estraguei o meu joelho."

E esse pensamento, de estragar o meu joelho, de não ter mais um corpo saudável, o medo de pensar que poderia acontecer outras vezes depois dessa, esse pensamento, estraguei meu joelho, me deu um peso tão grande no coração que eu nem pensei na dor.

Eu mesma coloquei o meu joelho de volta no lugar, ainda em casa. Desci os três andares do terraço e entrei no carro sozinha, pra me levarem ao hospital. Pedi pra minha mãe buscar um analgésico e minha bolsa. Abri minha carteira, peguei minha carteirinha do plano de saúde e minha identidade. Eu não pensei na dor. Eu só senti dor quando cheguei no hospital e avisei que não ia conseguir sair do carro andando. Eu só senti dor de verdade na sala de medicação, porque eu nunca tinha estado numa emergência e eu nunca tinha tomado medicamento na veia. Meu corpo sempre funcionou.

Eu perguntei ao médico da emergência se eu ia poder correr de novo, se eu podia pular numa cama elástica. Ele disse "espera pelo menos uma semana." Mesmo que eu quisesse esperar menos, meu joelho dói pra dobrar, dói pra esticar, parece que ele tá tentando se reacostumar ao lugar dele. Mesmo se eu quisesse esperar menos, não foi isso que eu perguntei. Eu queria saber se meu corpo vai voltar a ser perfeito, a garantia de que isso nunca mais vai acontecer, de que eu posso confiar que estou pisando certo, posso confiar que meu joelho vai ficar no lugar. Eu preciso consultar um outro ortopedista, ele me diz.

Sim, foi a pior dor que eu já senti na vida. Quando saiu do lugar, quando eu botei no lugar. Foi a pior dor da minha vida. Mas não chegou nem perto de ser tão ruim quanto foi perder a confiança que eu tinha no meu corpo, que levei tanto tempo pra conseguir.

terça-feira, 25 de março de 2014

Assim que a minha Internet foi transferida, eu vim pra casa nova. Não tinha gás ainda, então não tinha banho quente. Que o Rio de Janeiro me desculpe, mas eu torci muito pro calor continuar aqui e não ir embora até que viessem instalar o gás.

Fiquei tão feliz de ir à companhia de energia elétrica colocar meu nome na conta. Ficar feliz de ter conta pra pagar, qual é a necessidade disso? Deito pra dormir e só acordo no dia seguinte um pouco antes do despertador tocar, mesmo morando em frente à linha do trem, que começa a rodar o quê, às 4:30?

oi, muito prazer, eu sou a ágata da islândia
na primeira noite eu fiz sanduíche, na segunda eu pedi comida porque eu ainda não tinha gás e tinha preguiça.

 já no domingo teve almoço, mesmo sem fogão, só com o forno elétrico.
 e no fim de semana teve visita ;)

Eu tava saindo pra ir à terapia, ele saindo pra ir embora, chegaram os técnicos pra ligar o gás. Você pode ficar com eles? Eu volto em 1h. Não sei como eu pedi, como nem me passou pela cabeça ligar pra minha analista e avisar que eu chegaria atrasada, nem chegaria, não sei como foi tão natural pedir. Eu na terapia recebendo mensagem "Seu aquecedor não tá funcionando, acho que é a pilha, tô indo comprar pilhas novas." E quando eu voltei, tinha banho quente e fogão funcionando.

Faz menos de uma semana que eu estou morando sozinha e minha mãe já me deu mais comida do que em 31 anos morando com ela.

a primeira música que tocou foi the wagon, do dinosaur jr, que era o que tava tocando no meu fone de ouvido quando eu entrei com as minhas malas.